PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 26 de Janeiro de 2013
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - UMA SENHORA CHAMADA SÃO PAULO

 

 

 

 

 

 

            Se há uma lição que a vida me ensinou e sempre vive me lembrando é que não se pode dizer “dessa água não beberei”, nem “cuspir para cima”, como se diz por aí, pois, sem qualquer dúvida, a tal água se torna doce, desejada ou necessária e o cuspe despenca na cara.

 

            Aliás, digo até mais: o inesperado, o imaginável, quando não são tragédias, são parte do que a vida tem de melhor. As surpresas, os atalhos impensados, o amor que não se sonhava, o sonho que não se sonhara e tantos outros “imprevistos” fazem com que cada jornada humana seja única e incrível.

 

            Pois bem, assim, um dia, há muito tempo, muito mais do que desejo confessar, estava eu, aos 17 anos, às vésperas de terminar o então colegial e hoje ensino médio. Era hora de escolher não apenas a faculdade que eu faria, bem como o local que seria escolhido para isso. Venhamos e convenhamos que essa escolha, no mais das vezes, importa no que se fará da vida dali para frente e isso, como, creio, aconteça com muitos jovens, deixou-me apavorada.

 

            Só havia uma coisa da qual eu estava certa: jamais iria para São Paulo! A ideia não me passava nem remotamente pela mente, exceto pelo lado da negativa. Eu não apenas achava a cidade feia, cinza, como atemorizante. Creio que a palavra certa para o que eu sentia por São Paulo era ojeriza. Mesmo sabendo que uma das melhores faculdades de direito, pública, ficava em São Paulo, nem ousei me inscrever no vestibular, até para não correr o risco de passar.

 

            Dessa forma, lá fui eu para o Paraná, para cidade de Londrina, na qual morei excelentes 5 anos. Contudo, sempre que me perguntavam se eu ficaria lá após terminar o bacharelado em Direito, eu não tinha convicção, eu não achava essa resposta no meu coração. Para poder aperfeiçoar meus estudos, acabei dando a mão à palmatória e, ainda a contragosto, vim morar em São Paulo.  

 

            Não posso dizer que esse tempo, que restou sendo de dois anos, tenha deixado saudades. Foram tempos de dinheiro contado por centavos, de morar na casa dos outros e de muita autocobrança, ainda que produtivos em termos de estudo e experiência de vida. Tão logo pude, voltei para o interior, aliviada por ter deixado aquela gigante que sequer eu chegara perto de desvendar ou de entender.

 

            Mais nove anos depois e a vida mudou. São Paulo parecia o destino mais seguro sob o ponto de vista profissional. Eu tinha que apostar minhas derradeiras fichas, antes até nem fichas eu tivesse para isso. Pela segunda vez, fiz minhas malas e fui para São Paulo, pronta para o que viesse, fosse para devorá-la, fosse para ser devorada por ela.

 

            Bastaram, inexplicavelmente, menos de seis meses para que algo muito estranho ocorresse... A gigante de pedra foi me seduzindo de forma irresistível e eu fui me deixando conquistar até estar totalmente entregue aos seus mistérios, aos seus cantos, encantos e desencantos. Pela primeira vez em toda minha vida, senti-me pertencendo a um lugar, a uma cidade. É como se fosse uma cidade nova e como se eu tivesse vivido aqui minha vida toda.

 

            É claro que ainda há muito a ser feito para tornar São Paulo uma cidade modelo. Há muita violência, muita sujeira, muito descaso público e privado, mas, por outro lado, já não há tantos lugares no nosso país onde esses fatores não estejam presentes. No entanto, poucos lugares tem a mesma mistura de pessoas, de culturas, a mesma gama de oportunidades. Sempre há algo novo a ser descoberto em São Paulo, essa senhora que completa 459 e para a qual confesso meu amor incondicional, imprevisto e até inexplicável.

 

            E não é mesmo assim o amor?  Só se sente e só se pertence... Parabéns São Paulo!

 

 

 

 

 

 CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 12:11
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