PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 23 de Março de 2013
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - UM DIA APENAS

 

 

 

 

 

 

 

 

            Dia 08 de março se comemora o Dia Internacional da Mulher. Datas como essa me levam a muita reflexão. Primeiro que, já de cara, sou um tanto desconfiada de datas comemorativas, quando delas se esquece o significado e tudo o que resta é a versão comercial da coisa.

 

            É sabido que as mulheres tiveram que lutar muito pelos seus direitos, eis que, historicamente, em muitas culturas, inclusive no Brasil, foram tratadas como objetos, como pessoas com direitos menores, menos aptas e menos merecedoras de respeito e proteção. Mas também é fato que tal não se deu apenas com as mulheres, mas também com as crianças, com negros, índios, com os mais fracos, com os deficientes e com qualquer um que não pudesse se impor. Não sou uma historiadora, mas creio que a história do mundo é, de fato, uma história de dominação.

 

            Dessa forma, é válido estabelecer-se uma data comemorativa, quando isso é feito para que se registre que a sociedade, como um todo, não concorda com o tratamento que foi ou é dado à determinada sua parcela, seja composta por minorias ou não. A data, contudo, não pode servir como espécie de recompensa ou mesmo paliativo para situações das quais não se cuida, não se quer ver ou das quais não se quer cuidar, seja por descaso, seja por comodidade, seja pelo que seja...

 

            Não quero, nesse sentido, ganhar uma rosa ou milhares de parabéns por ser mulher, pura e simplesmente. Como mulher, e, sobretudo amando flores, fico lisonjeada e agradecida por ganhar alguma que seja, mas quando isso tem alguma razão: amor, carinho, gratidão ou outro sentimento bom que a justifique. Não gosto de flores por tabela e nem penso que alguém deva receber parabéns por ser mulher, ou por ser homem, ou por ser alienígena ou terráqueo...

 

            Em meu sentir, as pessoas devem ser parabenizadas pelo que fazem, pelo que são, pelo que conquistaram, para si e para os demais. Eu rendo meus mais profundos agradecimentos por todas as mulheres que não aceitaram ser tratadas de forma diferente dos homens, quando deveriam receber o mesmo respeito, gozar dos mesmos direitos. Reverencio as mulheres que tiveram coragem, iniciativa e forças para que hoje nós, suas sucessoras, possamos viver em um mundo menos desigual nesse sentido.

 

            Entendo, porém, que, para que hoje, ao menos no Brasil, as mulheres, de um modo geral, possam ter uma vida menos sofrida, muitos homens compraram a mesma causa e, de mãos dadas ou armadas, fizeram valer o sentido de igualdade. Assim, aos pais, maridos e irmãos de mulheres que puderam estudar, trabalhar, optar por não vestirem a forma que a sociedade lhes moldara, o meu especial agradecimento, pois também é graças a eles que hoje eu posso deitar minhas palavras ao papel, publicamente, sem usar pseudônimos ou outros disfarces.

 

            Comemoro, desse modo, a data do dia 08 de março, nesse espírito, mas não me permito esquecer de que há, ainda, pelo mundo todo, mulheres vítimas da brutalidade, da ignorância, da lascívia e do ódio de alguns infelizes homens. Enquanto as mulheres, bem como todos os que sejam mais fracos em algum sentido, forem subjugadas pelos mais fortes, haverá injustiça e dor.

 

            Pelas mulheres que apanham de seus covardes companheiros e maridos, pelas meninas prostituídas, pelas mulheres estupradas, pelas abandonadas porque envelheceram, pelas injustamente preteridas no mercado de trabalho, pelas mutiladas mundo afora, por aquelas as quais se nega a educação, a liberdade, o direito de ser o que quiserem ser, não apenas quero lamentar, mas emprestar a minha voz e minhas palavras, no desejo de legar, para minhas sobrinhas, para minhas alunas, um mundo com menos indiferença para dor alheia.

 

            Feliz dia das mulheres para todas que sabem que ser mulher é ser digna de respeito como qualquer ser humano...

 

 

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:50
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