PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 29 de Março de 2013
LAURENTINO SABROSA - PENSAMENTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

88 - Não faço promessas em casa para cumprir em Fátima.

Faço promessas em Fátima para cumprir em casa.

 

89 - Há pessoas que não são prestáveis a fazer favores mas gostam de os receber; há pessoas que gostam muito se ser prestáveis a fazer favores, mas não gostam de aceitar. As primeiras têm uma certa forma de parasitismo; as outras têm uma certa forma de orgulho e de vaidade. Não se pode “viver juntos” se a conceder favores não corresponde receber favores se e quando houver oportunidades. 

 

90 - São Francisco de Assis foi quem melhor conseguiu imitar Cristo. Amava a natureza, a irmã morte, a irmã água e o irmão lobo. Não amaria ele também o irmão touro? lá porque este é fero e bravo? Imitar plenamente Cristo é impossível; imitar São Francisco é difícil mas possível, o que aumenta a obrigação de o fazer. Assim, como se pode gostar de touradas?

 

  91 - “De quem eu gosto nem às paredes confesso”. Mas eu digo “Quem eu amo só às paredes confesso”. Bem posso fazer delas relicário do meu segredo, como se fossem augusta pitonisa, porque é da velha Sabedoria da Nações que elas têm ouvidos, e é da sabedoria mística de Teilhard de Chardin que elas estão impregnadas do Espírito de Cristo. São, assim, o mais perfeito confidente, mais fiel e sigiloso que o zéfiro que ondula as searas, porque esse, orgulhoso de saber o que lhe foi confiado, propala-o aos quatro ventos seus irmãos. Então, eis que “todo o mundo o sabe”: os ventos semeiam-no no éter, o Sol absorve-o e o transmite à Lua, a Lua informa o Mar, o Mar enrola-o na areia, a areia vai incubá-lo como se fosse um preciosíssimo ovo, donde vem a surgir “o mais” de todos os tempos e para que todos, mesmo todos, tomem conhecimento e se extasiem. Porém, nesse momento, o que Sky e Heaven sabem ser pulquérrimo, imediatamente fica desbotado e, mesmo perante os que seguem a Sabedoria das Nações e são tão permeáveis ao Espírito como as paredes, não passará de ser “uma coisa” bonita, louvável, enternecedora.

Como isso é pobre para quem tem sede de infinito! O que é belo e puro, perfeito e sublime, há-de, um dia, ter a a sua paga, que nem o beneficiado por “essa coisa” espiritual e terna, terna e eterna, pode dispensar. A recompensa do que eu só às paredes confesso há-de ser excelsa e digna, a corresponder à beleza do que lhes digo e, então, aguarda-me uma entrada triunfal no Reino daquele de quem eu queria ser o alter ego, Aquele que enchendo as minhas paredes as tornou dignas de serem minhas confidentes. Estou a ouvir desde já, em cortejo solene e grandioso, uma marcha nupcial ainda desconhecida, em que ao som de harpas, cítaras e liras Ele manifesta nas alturas a Sua grandeza ao mesmo tempo que na terra faz brilhar a Sua glória, para quem tem tão bons ouvidos como as paredes e está como elas cheio do Espírito de Cristo. Um tapete largo como o céu, ornado de estrelas, resplandecente de luz mais branca do que a neve me há-de conduzir a uma mansão privada e colectiva, que nunca foi nova nem nunca foi antiga, onde vou recomeçar o princípio sem dele ter saído, onde vou reencontrar o que nunca perdi, onde não é preciso tendas para nos sentirmos bem, nem tectos de abrigo para nos sentirmos seguros, nem paredes com ouvidos para desabafarmos amores ou angústias.

Por isso, se só em Deus ponho a minha esperança, “ quem eu amo só às paredes confesso”.

 

92 - A Natureza não faz milagres, faz revelações – Carlos Drummond de Andrade. Consideramos milagres aquilo que não sabemos ou podemos fazer, não sabemos explicar. A Natureza é “um outro eu” de Deus, e Deus não faz milagres, porque para Ele é tudo muito “natural”, tudo se processa segundo os seus planos os seus desígnios, segunda a sua Providência. Milagres não existem, só existem na nossa imaginação como consequência das nossas inferioridades. Tudo decorre segundo a vontade e o poder de Deus.

 

93 - O prazer é a prova da Natureza, o seu sinal de aprovação. Quando somos felizes, somos sempre bons, mas quando somos bons nem sempre somos felizes – Óscar Wilde. É uma visão muito pagã das coisas. O autor, mestre do paradoxo, nem sempre neles é feliz. Este pensamento deve ter sido congeminado na perspectiva social da moral do prazer e na sua época mundana em que era homo-sexual o que lhe veio a custar uma vergonhosa prisão. O ser bom não é consequência de sermos felizes, embora a felicidade possa contribuir para, em entusiasmo fortuito, sermos epidermicamente, pontualmente, bons. Ser bom é inato, embora susceptível de aperfeiçoamento. Todo o prazer tem a sua mescla de dor, quanto mais não seja por se saber que é fugaz e transitório. Quando somos bons, medularmente, espiritualmente bons, ao contrário do que diz O. Wilde, somos sempre felizes.

 

 

 

LAURENTINO SABROSA    -   Senhora da Hora, Portugal

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 14:33
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