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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013
LAURENTINO SABROSA - O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO E ALGUMAS DIVAGAÇÕERS A PROPÓSITO - Xlll

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dicionário da Academia, de que tanto temos falado, parece achar natural o aportuguesamento de termos estrangeiros, e também parece que considera isso um nobre enriquecimento. Se o tal termo não tem correspondente na nossa língua, como  quase todos os termos técnicos … que remédio!  é preciso aceitá-los. Mas aceitar, por exemplo, os termos derby e briefing, ou aportuguesá-los em dérbi e brífingue, é aviltante para a língua portuguesa e devia ser aviltante para o povo que a criou. Derby, não dérbi, só terá legitimidade se nos referirmos às corridas de cavalos em Inglaterra; briefing (reunião de trabalho) nunca terá legitimidade, muito menos brífingue,  –  dérbi e brífingue, não são inglês, não são português, não são nada, são uns abortos linguísticos, sem uma etimologia e uma tradição cultural, linguística e popular que os legitime. Têm um significado injectado à força.

 

Será que também nisto queremos imitar os brasileiros? Mas esses nossos irmãos, ou mesmos filhos, como lhes quisermos chamar, em muitos aspectos não nos devem servir de exemplo, por muita amizade e consideração que lhes tenhamos. Têm um mentalidade muito própria, consciência e memória colectivas muito diferentes, originadas por variadíssimos factores, como a História, o clima, a vastidão e a riqueza do seu território – e tudo isso se reflecte na linguagem e até nos cultos religiosos.  Como já disse, os brasileiros não tiveram rebuços em abrasileirar o termo francês toilette em toalete , outro aborto linguístico que eu espero não seja adoptado em Portugal. Outro exemplo deste “à vontade” dos brasileiros é terem abrasileirado o termo inglês team em time, a corresponder à pronúncia no inglês. Entre nós ainda não se vulgarizou essa grafia de time, preferindo-se a forma original, mas, mal por mal, acho preferível que se use o termo equipa, galicismo derivado do francês équipe, que, rigorosamente, não tem equivalente em português Os termos turma ou selecção  não traduzem perfeita e rigorosamente a mesma ideia. O leitor deve saber ainda que, na sua linguagem, os brasileiros têm tendência para o abuso de gerúndio: estou fazendo, estou esperando, etc. Eu nunca vi a explicação, mas quer-me parecer que isso se deve à influência dos norte-americanos, ali a norte e tão perto, influência bem acentuada até no consumo desenfreado de Coca-Cola. Os norte-americanos, falando inglês, influenciaram os brasileiros também na linguagem, levando-os a adoptar o uso do gerúndio a torto e a direito, numa construcção gramatical a que os ingleses chamam forma contínua ou progressiva. Tudo isto para notar ao leitor que os brasileiros devem ser nossos amigos mas não nossos mentores. Eu até estou admirado por os intelectuais do ACORDO não nos terem, ao menos aconselhado, em nome da universalidade e do “prestígio” da nossa língua, a dizer e escrever toalete, time e a usar sempre que possível o gerúndio! Esqueceu…

 

É evidente que este ACORDO, que só é ACORDO no nome que temos de lhe dar quando a ele nos referimos, não é da responsabilidade só do elenco intelectual que o elaborou e concretizou. Quem o aceita tem, pelo menos indirectamente, responsabilidade semelhante. E quem gosta de navegar no mar dos estrangeirismos, colabora tristemente na degradação.  Para mim é confrangedor e lamentável que pessoas que fazem parte do escol deste país, não tenham  um mínimo de senso que as leve a reparar e reflectir sobre o abastardamento da língua para que estão a contribuir.

Os exemplos seriam um nunca mais acabar. Tenho presente a revista da ORDEM DOS MÉDICOS, em que, no seu número de Janeiro de 2011, vem transcrito o discurso de tomada de posse dos seu actual bastonário, realizada em 28 de Janeiro. Como português  importante que é, ele não se dispensou de mostrar que também sabe coisas – e, então, diz a certa altura: Os Médicos, os Doentes e todos os stakeholders da Saúde podem contar com um novo parceiro no terreno.

O computador e o tal nosso Dicionário desconhecem o termo “stakeholders”. Parece que em assunto de estrangeirismos, quando não há, inventam-se. No entanto, temos de reconhecer que este senhor doutor foi bastante modesto: no seu longo discurso, foi aquele o único “palavrão” que utilizou. Porque tenho presente a revista de um dos grandes Bancos, em que o seu Presidente, no seu Editorial, num texto muito mais curto, usa quatro “palavrões” da mesma categoria. Diz ele : …o programa de deleverage em curso no sector bancário…  ;  …devido às sucessivas revisões em baixa dos seus ratings,… ; O gap de liquidez foi compensado com o aumento dos depósitos e a capacidade interna de geração de cash-flow. Ora vejam bem quanto a língua portuguesa é pobre!... No entanto, temos de reconhecer que se o senhor doutor foi modesto, o senhor presidente foi honesto: os seus estrangeirismos foram devidamente assinalados sendo escritos em itálico, contra o que modernamente se tornou hábito.

 

 

LAURENTINO SABROSA    -   Senhora da Hora, Portugal

laurindo.barbosa@gmail.com

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:00
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