PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 25 de Abril de 2013
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - OS DOIS OLHARES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Motivou  esta crônica o poema “As Coisas” de Mário Quintana: “O encanto/ sobrenatural/ que há/ nas coisas da Natureza!/ No entanto, amiga,/ se nelas algo te dá/ encanto ou medo,/ não me digas que seja feia/ ou má, / é, acaso, singular.../ E deixa-me dizer-te em segredo/ um dos grandes segredos do mundo:/ - é simplesmente porque/ não houve quem lhes desse ao menos/ um segundo/ olhar!”

 

A compaixão humana está em olhar de novo. À primeira vista, enxergamos a casca com seus esplendores ou ruínas. Se nos voltarmos pelo menos uma vez mais, notaremos aonde levou a história de cada um com suas crenças e descrenças, com seus ajustes e desajustes, em seu cair e levantar, nas oportunidades e na falta delas.

 

Nas terras de Israel, foi assim com a mulher adúltera que os homens levaram a Jesus.  A decisão imediata, pelo acontecido e pela lei, seria apedrejá-la. O Senhor distingue a situação dela e a deles além das aparências e permite que lhes caia as escamas da visão ao pronunciar: “Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Ver sem escamas é o segundo olhar.

 

Do lado de cá, tenho certeza de que, tanto você como eu, temos inúmeros acontecimentos que nos levam à aprendizagem do segundo olhar. Embora o conhecêssemos desde criança, o menino se tornou mais próximo no início da adolescência. Bloqueios para ler, escrever e nos cálculos. Pouca resistência ao ouvir um não e nas perdas. Pelo menos uma vez por semana nos dizia que não voltaria mais. Passado um ou dois dias, retornava com seu sorriso largo. A realidade e algumas pessoas nos aconselhavam a desistir, mas, pelo fato de percebermos que ele não aderia aos desvios tão próximos das vielas de seus dias, insistíamos. Há dois anos compreendeu a possibilidade de trabalhar suas resistências, desde o aceitar, com humildade, aulas de alfabetização, embora cursasse o Ensino Médio. Existem adolescentes que preferem comportar-se de maneira inadequada na sala de aula a colocar suas dificuldades em assimilar a matéria.  Parece-me que dói menos ser considerado indisciplinado a incapaz. E o sistema educacional brasileiro não oferece grandes chances de aprendizagem do que ficou defasado no histórico escolar. No ano passado, com frequência, o menino nos dizia de seu sonho em trabalhar no setor de estoque e na colocação de mercadorias nas prateleiras de algum supermercado. Meses depois, experimentou sua maior perda: a morte, durante uma cirurgia simples, da mãe, que apostava que ele seria um homem de bem. Doeu profundamente, porém ele não reagiu, como antigamente, com revolta e distância.  Há um mês, através do Programa Aprendiz da Prefeitura Municipal (SEMADS – CRIJUV), em parceria com o Ministério do Trabalho e SENAC, conquistou sua vaga em supermercado, no qual atua naquilo que buscava. Ele e eu sabemos que, bem lá do alto, a mãe lhe sorri com claridade e afago.

 

Há outra situação de proximidade geográfica. Sete anos de olhar sobre uma mulher ensandecida pelas drogas. A impressão que passava, ao vê-la ao entardecer, com a roupa suja e os cabelos desgrenhados, chorando e murmurando sons desconexos, era de um animal ferido e faminto, que se distanciava com velocidade de sua toca, no meio do mato, para trazer o “alimento” que lhe devolveria a paz. O segundo olhar era para sua meiguice com os filhos nos momentos de lucidez. Oscilava entre a fuga e o anseio de amor. Há poucos meses, entrou no ônibus e se fez de rota distante dos atalhos anteriores. Foi promovida, semana passada, no local em que trabalha, de auxiliar de cozinha para cozinheira. Tem como foco recuperar o convívio com os filhos.

 

Com o menino e a mulher, chegamos ao terceiro olhar: o da constatação de que a vitória vem da experiência de acreditar em si e de verificar que outros também creem, embora existam obstáculos tantos.

 

Que bom seria se não recusássemos um segundo olhar e ele fosse sempre de compaixão-reconstrução, propondo possibilidades.

 

Há muita gente perdida pelo mundo porque, como escreveu Quintana, “não houve quem lhes desse ao menos/ um segundo/ olhar/”.

 

 

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE   - É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil



publicado por Luso-brasileiro às 11:32
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