PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013
HUMBERTO PINHO DA SILVA - D. DUARTE E A BÍBLIA

 

 

 

 

 

 

 

 

Não há, no mundo Ocidental, família que não possua, pelo menos, um exemplar da Bíblia, mesmo as que se declaram agnósticas.

 

A divulgação do Livro, mormente o Novo Testamento, foi de tal forma feita, que praticamente não existe quem não conheça passagens do Evangelho.

Bem sei, que a maioria das Bíblias, encontram-se guardadas nas estantes, já que a leitura Desta, ainda é rara entre católicos, apesar das recomendações constantes da Igreja, para que seja diária.

 

Mas, na Idade Média, não foi assim. A Bíblia era para uso exclusivo de mosteiros e palácios. Os crentes tinham conhecimento Dela, pelos sermões e homilias.

 

A descoberta da imprensa, facilitou a difusão.

 

Mesmo assim, parte da literatura medieval sofreu influência do Livro.

 

Na “ Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela”, D. Duarte cita passagens do Evangelho, assim como no “Leal Conselheiro”.

 

Não admira, já que o rei possuía, na biblioteca, excertos do “Evangelho “, e seu pai, El-Rei D. João, chegou a traduzir “ Salmos” para a linguagem de então.

 

D. Duarte era, para a época, rei de elevada cultura. Fundou a primeira biblioteca real, no paço, e escreveu várias e curiosos livros. No seu reinado foi nomeado Cronista -Mor, Fernão Lopes.

 

Sabe-se que nessa livraria havia vários livros da Bíblia, entre eles:” Actos Apóstolos “, o “Livro dos Salmos” e “ Géneses”, todos em latim.

 

Há dúvidas se existia, no paço, exemplar da Bíblia completa; é de crer que não, mas que D. Duarte conhecia excertos, não há duvida, pois chega a citá-los no “ O Leal Conselheiro”.

 

Recomendava D. Duarte que não se devia ler muito de uma acentada, para se poder compreender e meditar melhor, e não enfartar a mente.

 

Recomendava a leitura do Evangelho, e esclarecia que há passagens obscuras, que nem os entendidos podem explicar, sem receio de errarem; mas, diz o rei, que se não percebermos, um versículo, passemos a outro.

 

Assevera D. Duarte que sempre aprendemos com a leitura do Evangelho, e se O conhecermos bem, podemos esclarecer os que não podem ou não tiveram oportunidade de O lerem.

 

Devido à Bíblia, a língua portuguesa está impregnada de hebraísmos e expressões desse povo.

 

Na opinião do rei, a leitura do Evangelho não é perda de tempo, muito pelo contrário.

 

Infelizmente, apesar de estarmos a séculos da Idade Média, ainda há muitos crentes que adquirem a Bíblia para engalanarem a estante.

 

Certa ocasião fui visitar senhora de elevada cultura. Sabendo que era católico, quis deslumbrar-me, mostrando uma Bíblia ilustrada de Doré, ricamente encadernada a couro e de vistosas folhas doiradas.

 

Ao entregar-ma, declarou eufórica: - “ Agora meu marido já tem uma Bíblia à sua altura!”

 

Essa mulher apreciava os livros, como muitos avaliam os homens: pelas vestes e aspecto exterior.

 

Pensava a boa senhora, que o marido ficava mais ilustre por possuir luxuosa Bíblia.

 

Esses livros, de elevado custo, em regra, não são para serem lidos, apenas servem para deslumbrar as visitas.

 

 

 

 

 

 

HUMBERTO PINHO DA SILVA   - Porto, Portugal



publicado por Luso-brasileiro às 09:31
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2 comentários:
De Miguel Silva a 28 de Outubro de 2013 às 20:15
Caro amigo Humberto:
Tocaste mesmo na ferida de tantas pessoas que após o 25 de Abril de 1974 enxeram estantes de livros incluindo a Bíblia para adorno e não para ler.
Um bem-haja
Forte abraço
Miguel Silva


De Luso-brasileiro a 4 de Novembro de 2013 às 10:55
Na verdade é mesmo assim...mas antes da Revolução dos Cravos a mentalidade era a mesma.
Amigo, que tem quinta no Minho, disse-me que a Cooperativa da Vila, em 1975, recomendou arrancar a vinha que dava vinho tinto. Esclarecia que este era usado só em tascos e por gente pobre. Os bacocos acreditaram e toca de substituírem as cepas. Resultado: agora, como todos sabem, prefere-se o vinho tinto, já que é mais saudável.
Esta senhora, que dava valor às folhas douradas, tem um grau académico muito elevado….mas pensa como os analfabetos do tempo dos nossos avós.
Um abraço.


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