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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013
LAURENTINO SABROSA - SOLDADO DE CRISTO

 

 

 

 

 

Há cinquenta anos ou mais, havia aqui em Portugal um cântico religioso, hoje caído em desuso, que principiava com a seguinte estrofe:

 

PROTEGE, Ó CRISTO, O NOSSO PORTUGAL

QUE É SEU BRASÃO A CHAGA DO TEU LADO

E SEMPRE QUIS, POR TIMBRE SEU REAL,

SER FILHO TEU, TEU MAIS FIEL SOLDADO.

 

Quando li o livro de Paulo Coelho, MANUAL DO CAVALEIRO DA LUZ, logo identifiquei o CAVALEIRO DA LUZ com o SOLDADO DE CRISTO.

 

Vim a verificar que me enganei, pois, na verdade, apesar das afinidades, são muito diferentes. Há muito de esotérico no CAVALEIRO que o torna incompatível com o SOLDADO, esoterismo esse que predomina em toda a obra de P. Coelho, pelo que não merece o meu apreço, apesar das suas muitas expressões sapienciais.

 

Muito antes de chegar a essa conclusão, opinião pessoal que se me afigura justa, eu, cheio de entusiasmo e de certa maneira plagiando o estilo Paulo Coelho, eu escrevi:

 

 1 – Como é difícil, meu Deus, ser Soldado de Cristo, guarda d’honra da Sua divindade! O “soldado de Cristo” tem vários nomes: “Soldado de Cristo”, “Cavaleiro da luz”, “Bendito de Meu Pai”…

 

2 – O Soldado de Cristo ama a rotina no que ela tem de ordem, mas evita a rotina no que ela tem de estagnação ou enfado. Cria sempre incentivos que lhe dêem perspectivas que lhe iluminem a vida, mas sem miragens enganadoras. Procura o ânimo e as alegrias das sãs diferenças e variedades – a variedade agrada

 

3 – O Soldado de Cristo ama o santo do seu nome e apresenta-o ao seu Anjo da Guarda para trabalharem todos em conjunto. Ele, soldado, o seu anjo da guarda e o santo do seu nome sob a tutela de Cristo, farão uma troika que protege “o nosso Portugal” .

 

4 – Para o Soldado de Cristo, “ o nosso Portugal”, não é só o seu rincão natal – é tudo, são todos, ele e os outros, a sua pátria e a pátria dos outros. E se, às vezes “os outros” não têm “por timbre seu real” ser filhos ou soldados de Cristo, mais uma razão para ele, “fiel soldado”, ter o cântico e a prece no coração e na mente. Se a afirmação é uma mentirinha, então passa a ser uma amorosa “liberdade poética” que Deus desculpará. Sim, porque ser Soldado de Cristo também é ser Poeta.

 

5 – O Soldado de Cristo nunca tem pressas doentias, geradoras de stress e de desorganização. Procura uma vida laboriosa em que as coisas se realizem rápidas mas tão perfeitas quanto possível. Serenamente, aguarda que o tempo ao escoar lhe arraste os problemas ou para a foz do esquecimento ou para a plenitude da realização. Luta e trabalha, porque uma vida santa não é uma vida santificada.

 

6 – O Soldado de Cristo mora sempre numa terra pequena. Se não pode conhecer toda a gente, sorri para toda a gente, não cumprimenta ninguém por favor nem com afectação. Anda sempre de cabeça erguida, a olhar para o chão, à procura de dracmas perdidas, mas também a olhar ao longe, sorrindo a receber o futuro que se aproxima.

 

7 – O Soldado de Cristo, mesmo sofrendo privações e desgostos, acha sempre que está bem instalado na vida, porque é feliz por aquilo que tem e não é infeliz por aquilo que não tem e até gostaria de ter; é feliz por aquilo que é, em verdade, em sinceridade e na procura do Amor e da Justiça. Por isso, anda sempre a cantar com a luz do seu olhar e serenidade na sua face, em tom marcial e heroico, o Hino da Alegria e da Liberdade. A verdade o liberta e lhe enche o peito de nobre superioridade.

 

             - Ele está cheio de mosto  -  dizem uns

             - Ele tem a mania – dizem outros.

 

Mas ele não se importa. Passa ao largo a sorrir, porque a viver assim é como que uma profissão em que faz aquilo de que na verdade gosta.

 

8 – O Soldado de Cristo é simplesmente um homem, mas há alguma diferença entre o que é “fiel soldado” e aquele que canta e reza, pensando apenas nos seus filhos e no “seu Portugal”.

 

O “soldado”, o “fiel soldado”, o “cavaleiro da luz”, teve necessidade de queimar no seu logradouro ervas e várias inutilidades.

 

O vizinho do terceiro andar ficou todo zangado por ele ter escolhido um dia límpido e quente de Verão para o fazer. Gritou-lhe lá de cima:

 

                      - Não vê que o fumo sufoca o ar e intoxica as pessoas!?

Com um largo sorriso o “soldado” respondeu:

 

                     - Não se incomode, antes disso, daqui a bocado, vai chover!

O vizinho ficou indignado. Num assomo de cólera sentiu-se cheio de força inaudita. Ah! Que se ele não sofresse do coração e da asma! Até daria um salto acrobático para o estrancinhar! Ainda por cima a zombar dele! Saiu da varanda, batendo a porta com violência. Meia hora depois chegou a esposa e encontrou-o prostrado com uma crise, ofegante e cheio de dificuldades respiratórias.

 

                     - Que foi? Que foi? – perguntou assustada, a abrir porta e janelas.

 

                        - Não abras, não abras, por causa do fumo – disse ele num fio de voz – é esse palerma de lá de baixo que está a fazer uma fogueira.

                     - Fumo? Não vejo fumo nenhum. Nem fogueiras.

O homem, ainda muito convencido, reuniu forças e veio à varanda. Olhou para baixo, viu um monte de cinzas muito molhado e mudo como vulcão extinto. Incrédulo, olhou para o céu.

 

                      - Choveu ?

                      -  Nem gota,  porquê?

Aquele homem, talvez um “soldado” que rezava só pelos seus filhos e pelo “seu Portugal”, ficou atormentado a pensar que tivesse havido um milagre. Então, “o tal” que tinha zombado dele, podia fazer milagres de chover num esplendoroso dia de Verão? E sem ninguém ver?!!

 

Ele não sabia que o “fiel soldado de Cristo” tem o poder de fazer milagres que consistem simplesmente em fazer chover três regadores de água sobre umas cinzas fumegantes, para que o fumo não incomode ninguém

9 – Um Soldado de Cristo nunca fica indiferente quando passa por um hospital, por uma cadeia ou por um cemitério.  Quando passa por um cemitério, olha para as campas, olha para o céu, símbolo daquele Céu a que tanto aspira, e estabelece a ligação com uma oração de sufrágio. E, embora estar no Céu seja sua ambição suprema e legítima, dá graças a Deus por estar “cá em baixo” a usufruir do dom da vida que Deus lhe vai dando. Quando passa por uma cadeia ou hospital, olha para as janelas, adivinha quem está por detrás a sofrer,  ergue uma prece a seu favor e em agradecimento por ter saúde física e equilíbrio moral, que lhe permitem estar “cá em baixo”, do lado de fora do hospital ou da cadeia. Por muito atribulado que esteja, sente que aqueles outros sofrem mais do que ele. Olha então, e ainda, para o alto, expedindo as suas orações pelas janelas que as nuvens lhe abrem. Se, porventura, não há nuvens, oh! que maravilha!, também todo se extasia com a beleza celeste. Um céu sem nuvens é todo ele uma janela aberta para a Eternidade!

 

 

 

 

LAURENTINO SABROSA    Senhora da Hora, Portugal

laurindo.barbosa@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 11:03
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