PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 24 de Maio de 2014
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - COTAS EM CONCURSOS PÚBLICOS

 

 

 

 

 

 

 

 

            Antes de iniciar esse texto, quero deixar claro que se trata da minha opinião, a qual, em um país democrático, tenho o direito de expressar. Registrado isso, prossigo tecendo algumas considerações sobre a recém aprovada cota para negros em concursos públicos. Preciso dizer que sou veementemente contra e passo a explicitar os porquês.

 

            É claro que não se pode afirmar que não haja desigualdades sociais no país. Aliás, há e muita.  Não se pode confundir desigualdade com diversidade, por outro lado. Somos o país da diversidade. Somos diferentes nos costumes, na cor de pele, na estatura, no tipo de cabelo, de olhos e mais outras centenas de detalhes. Somos o resultado de uma miscigenação entre escravos, dominadores, imigrantes, fugitivos de guerras, índios e de toda sorte de gente que apareceu por essas bandas. Como regra, ainda, somos, nesse quesito, um país tolerante, de um modo geral.

 

            Em termos de país, de nação, somos jovens, se comparados na história do mundo com outros países mais desenvolvidos. Com dimensões continentais, somos diferentes até conforme a região geográfica na qual estivemos inseridos. Assim somos nós, a despeito da diversidade, todos brasileiros, natos ou naturalizados.

 

            Parte de minha família, pelo lado paterno, era muito pobre. Sem estudo algum, meus avós eram pessoas muito humildes. Minha avó foi empregada doméstica e meu avô era auxiliar de pedreiro. Com muito esforço e sem auxílio de ninguém, exceto de muito suor e coragem, montaram uma pequena padaria e criaram seus três filhos, sendo dois professores e um médico. Tudo isso sendo pobres, semianalfabetos e sem qualquer guarida do Estado ou programa assistência. A casa deles, até morrerem, não tinha forro no teto e o piso era de vermelhão. A par de tudo isso, formaram todos os filhos e os preparam para fazer o mesmo com os filhos deles. O fato deles serem brancos não mudou ou facilitou absolutamente nada. Eles começaram do zero, literalmente.

 

            Meus pais, por sua vez, trabalharam a vida toda, privando-se de luxo, de viagens e de boa dose de conforto, tudo para que as três filhas pudessem estudar e ai de nós se não o fizéssemos. Antes de qualquer diversão, vinha a obrigação. Lembro-me de ter dois sapatos para ir à escola, em certo período da vida e nada mais do que isso. Eu estudei em escola pública até a antiga oitava série.

 

            No colegial, tive bolsa integral, pelo fato de meu pai ser professor na escola e quando chegou o vestibular, estudei como nunca em toda minha vida. Não passei na primeira prova e tive estudar ainda mais. Seis meses depois eu consegui minha vaga na faculdade pública, mas não por ser branca ou rica, mas por ter estudado e pelos meus pais terem tido uma vida de sacrifício para isso.

 

            Sou a favor de certas ações afirmativas, mas a mais importante delas ninguém exige: um ensino público de qualidade, acessível a todos, brancos, negros, pardos, amarelos e vermelhos. Na minha vida, de origem humilde, foi o que fez a diferença. Só. Nada mais.

 

            Eu defendo o sistema do PROUNI, por exemplo, que permite estudo de qualidade, privado, a quem não tem condições. Isso é exemplo de ação afirmativa séria. Infelizmente, muita gente desonesta tenda driblar o sistema, tudo no simples intuito de estudar de graça, mas aí não é um defeito do sistema, mas do caráter da pessoa.

 

            Agora, honestamente, cotas para negros em concursos públicos eu considero um desrespeito ao princípio constitucional da igualdade. Quer dizer que entre um candidato qualquer e um negro, o negro terá que ser aprovado em detrimento de outro, que pode ser branco, vermelho, amarelo ou sei lá que cor?  Reservar uma quantidade de vagas para preenchimento por negros é dizer que um negro precisa disso para ser aprovado, que não tem capacidade para fazê-lo por si só. E, se consideramos, por elucubração, que um negro não tem a mesma formação que um não negro, estaríamos admitindo a hipótese de colocar no serviço público pessoas despreparadas?

 

            Conheço negros aprovados em concursos públicos e todos o fizeram por seus méritos. Eu, por exemplo, não passei. E daí? Como ficamos então? Sou contra esse tipo de ação, sobretudo em ano de eleições... Salário dignos e educação de qualidade, além de uma boa dose de caráter, ao meu sentir, seriam muito melhores do que políticas públicas politiqueiras...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA -  Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora   -  São Paulo.

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 10:43
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