PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - CAFÉ COM BOBAGEM

                      

 

 

              A Ângela estava certa de que dessa vez tinha uma boa chance de se dar bem. Ela tinha um bom pressentimento. Andava bem era cansada de encontros arranjados, principalmente considerando as últimas experiências que tivera. No ano passado, cada uma das amigas encontrou um cara “super legal” e muito “gente fina” para apresentar para ela. Depois de recusar umas três vezes, chegou um dia em que ela resolveu aceitar, muito mais porque não conseguia inventar novas desculpas, do que por convicção de que fosse encontrar alguém interessante.

             Assim, quando a Carlinha falou para ela que o João era um rapaz bacana, ela ficou com a orelha em pé, primeiro porque o gosto da Carlinha era duvidoso, mas também porque há séculos ninguém chamava ninguém de “bacana”. Só podia ser furada, mas o que custava tentar? Quinze minutos depois de conhecer o João, a Ângela concluiu que, em termos de encontro às escuras, nem sempre as coisas eram tão simples. Ela já não esperava que ele fosse um galã, mas acalentava a ilusão de que ele ao menos fosse agradável. O hálito de jararaca morta que o “bacana” tinha, contudo, acabou não só com as expectativas amorosas, mas também com o apetite dela.

            Depois de conhecer o Cláudio, apresentado pela Júlia, que tinha o ego mais inflado que ela já tivera notícia; depois de conhecer o Gustavo, irmão da Luciana, e constatar, com tristeza, que só a família não tinha visto que aquela Coca era Fanta Uva, ela só desistira mesmo quando encontrou o Rubens, apresentado pelo Mário, primo dela. Aquilo, com certeza, era vingança de família, porque ninguém em sã consciência pensaria que ela se interessaria por um cara cujo maior talento pessoal era imitar o Pato Donald. Ao menos não a noite toda...

            Assim, quando ela abriu a porta e viu o Antônio, o rapaz que, enviado pela mãe dela, Deolinda, fazia casinhas para cachorros, ela concluiu, sem muito esforço, que no quesito aparência, ele ganhava, de longe, da maior parte dos seus últimos, digamos, pretendentes. Claro que o Gustavo era lindo de viver, porém, enquanto pretendente, ele acabara resultando em uma “ótima amiga”.

            Como ela já tinha uma certa experiência na área, ao estender a mão para cumprimentar o Antônio, aguçou seu olfato ao máximo, no esforço para conferir o hálito dele. “Obrigada meu Santo!” O cheiro dele era inteiro bom! Pediu para ele entrar e aguardar no sofá enquanto ela ia passar um café.  Passou pela cozinha, ligou a cafeteira elétrica e voou baixo até o quarto, onde trocou de roupa e penteou os cabelos, para, minutos depois, com a maior cara de naturalidade, voltar para sala cheirando a perfume.

            “Glória a Deus” pensou ela. Ele não falava como o Pato Donald ou qualquer outro personagem da Disney. Na verdade, dando uma olhada geral, ele mais se parecia com um super herói Marvel e agora só faltava ele não ser a Mulher Maravilha. Em uma segunda, terceira e quarta olhada, ele não dava pinta nenhuma, mas, se fosse o caso, pensava, ela seria uma boa amiga e o apresentaria ao Gustavo...

            Quando ela viu Alegria aos pés dele, enquanto ele lhe fazia carinhos, ela não pode deixar de reparar nas enormes mãos que ele tinha. Era meio que um fetiche dela, que adorava mãos másculas. Achava sexy. Aquelas, definitivamente, tinham potencial em seu pódio pessoal de mãos bonitas. Foram até a cozinha, já que lá ela também tinha alguns biscoitos. Enquanto tomavam café, a mesa bamba dela deu sinal de vida. O Antônio, prestativo, pediu a ela que arrumasse algumas folhas de jornal e, de modo prático, improvisou um calço. Enfim, pensou Ângela, um pouco de equilíbrio...

            Para espanto dela, os assuntos foram fluindo sem dificuldade, de forma natural. Ele tinha aquele jeito bom de olhar nos olhos e tinha um sorriso meio torto que era um charme. Ai, será que Santo Antônio era mesmo milagreiro? Ou seria um milagre materno? Ela precisava ligar para mãe, Deolinda, agradecendo...

            Depois de duas horas de papo agradável, ele disse que precisava ir embora. Tinha ainda muita coisa para fazer. Adorara conhecê-la. Naquela semana teria jogo do Brasil, pela Copa do Mundo. Será que ela não queria ir assistir lá no condomínio dele? Eles montariam um telão e haveria um churrasquinho. Por que não? Lógico que iria.

            Quando ele foi embora, a Ângela, embora feliz, ficou meio ressabiada, porque há tempos ela se tocara de que as aparências enganam e que quando a esmola era demais, até mesmo o Santo desconfia. Procurou pelo Alegria, que não estava à vista e foi encontrá-lo embaixo da mesa, dormindo. Vai saber, às vezes, Alegria, fica mesmo onde menos se procura... De toda forma, fosse como fosse, era melhor do que assistir ao jogo sozinha. Ia pagar para ver!

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo



publicado por Luso-brasileiro às 10:36
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links