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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI - FESTEJOS JUNINOS - O FOLCLORE TAMBÉM É UMA QUESTÃO DE CIDADANIA

 

                      

 

 

Estamos frente às comemorações juninas, infelizmente, cada vez mais escassas. Por isso, o momento se mostra bastante oportuno para refletirmos sobre a necessidade de compreensão, valorização, respeito e preservação de nossa cultura e de nosso folclore que têm suas raízes no passado. Isto é, a continuação no tempo e no espaço da alma brasileira, das nossas tradições e de perpetuação do que somos hoje. 

 

 

A tecnologia e a própria ciência têm, perigosamente tornado o homem vulnerável na perda da sua identidade e do seu real papel dentro dos grupos a que pertence, colaborando para com esse quadro, a  ausência na transmissão de princípios culturais pelos meios de comunicação em massa, em virtude dos processos de divulgação serem mais diretos e o próprio homem menos participante da coletividade e menos solidário com o próximo. Além destes fatores que contribuem para a inexistência do espírito comunitário, somam-se outros como o consumismo desenfreado, a alienação e massificação dominantes. Tais aspectos têm colaborado decisivamente com a gradativa perda de nosso patrimônio cultural, tornando cada vez menores as demonstrações de nossos costumes, tradições e folclore.

Estamos em pleno mês de junho e tão ou mais populares do que o carnaval, na zona rural do Nordeste, as festas juninas – para Santo Antônio, São João e São Pedro – praticamente sumiram do mapa nas cidades grandes e o que ocorre ainda, como em São Paulo, nos pátios das igrejas e escolas, e em alguns quintais de casas da periferia, são um arremedo das comemorações trazidas ao Brasil pelos portugueses. Na região nordestina, elas  coincidem com a época em que se quebram as espigas de milho, ou seja, o tempo da colheita, do frio e o início do ano agrícola. É quando os moradores do campo acreditam precisar mais de proteção, para evitar a influência dos espíritos do mal e para espantá-los, soltam bombas e rojões. Efetivamente, o ciclo junino, urbanizando-se, vem perdendo a sua originalidade, embora ainda se vislumbrem alguns pequenos focos de resistência e nesta trilha, outras ricas manifestações populares também se reduziram de forma significativa, dependentes de poucos entusiastas ou idealistas que procuram mantê-las a qualquer custo.

O jurista Walter Ceneviva em seu artigo semanal no jornal “Folha de São Paulo”, certa feita, discorreu com muita primazia sobre a preservação do patrimônio cultural também como forma de viabilizar da cidadania, ressaltando que ninguém constrói o futuro sem preservar o passado:- ”A Constituição de 1.988 foi a primeira a tratar da proteção do patrimônio histórico e ambiental da Nação. Foi além ao dar armas ao cidadão interessado na proteção. Incluiu no rol dos seus direitos fundamentais e legitimidade para propor ação  popular que vise anular ato lesivo à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, como se lê do inciso 73 de seu  artigo 5º. O autor do processo nem sequer responderá por custas e honorários de advocacia da parte contrária caso perca a ação, salvo hipótese de comprovada má-fé”.

Por outro lado, destacou que a própria Carta Magna, em seu art. 24, inciso 7º dispôs que é da competência da União dos Estados e do Distrito Federal legislar concorrentemente sobre proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico e paisagístico, ampliando a esfera de controle sobre tais questões: - “Mais que uma questão de economia e de preservação ambiental contemporânea, a preocupação com o patrimônio cultural chama atenção para a nossa transitoriedade enquanto indivíduos.Transitoriedade a ser contraposto à permanência do patrimônio cultural como garantia das gerações que virão, a dos nossos netos de nossos netos. O futuro deles será melhor se nós, no presente, formos fiéis aos preceitos  constitucionais mencionados” ( 16/1/94 – “Letras Jurídicas”).

 Mais do que nunca precisamos compreender e valorizar o nosso folclore, que tem suas raízes no passado. Isto é, a continuação no tempo e no espaço da alma brasileira das nossas tradições, de perpetuação do que somos hoje. E exigirmos de nossas autoridades, embasados nos preceitos constitucionais existentes, maior respeito por nosso patrimônio cultural, cobrando-lhes ações efetivas que promovam a sua manutenção e novas formas que possam desenvolvê-lo no sentido de alcançar um número sempre superior de pessoas envolvidas com seus efeitos e reflexos, pelo próprio bem do país. 

Vale reiterar que a sabedoria – concepção justa do sentido da vida – proporciona uma idéia geral do mundo, de Deus, do bem e do mal, da ciência, do homem, da cultura e da sociedade. Estas realidades deveriam ser mais desenvolvidas nos brasileiros, principalmente nos jovens, preparando melhor sua personalidade social através da consciência de valores, do cultivo da autonomia crítica e do sentido de responsabilidade, condição indispensável para o exercício da liberdade e da democracia. O que introduz ordem e clareza na multiplicidade de conhecimentos, sendo que a tradição histórica e o folclore se revelam em instrumentos hábis à consecução dessas circunstâncias.

 

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI, advogado, jornalista, escritor e professor universitário



publicado por Luso-brasileiro às 10:48
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