PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 25 de Julho de 2010
PINHO DA SILVA - TERESINHA (01 de Agosto)

 

 

                      

 

 

 

Chamava-se Teresinha e fazia hoje anos. Era morena, daquele moreno, centeio e transmontano, que tem sol por dentro: rosto bronzeado de princesinha moira, seus grandes olhos reais abertos para a irrealidade das coisas e das almas!…

.

Chamava-se Teresinha, e fazia hoje anos…

.

Tinha fartos cabelos insculpidos de ondas profundas, em pau-preto filamentado e dúcil. Quando saltava às cordas ( “zás! zás! zàs!” ) os pés muito juntinhos, aos pulos, saltando e saltando, - e a corda vermelha descendo e batendo: ( “prás! prás! prás!” ) os grossos e espiralados caracóis cor-de-noite, que lhe ladeavam a carita de porcelana tostadinha, também saltava ( “zás! zás! zás! “ ); também batiam ( “prás! prás! rás!” ): eram como sinos de carrilhão alegre, bimbalhando, em catedral de esperanças, um hino infantil de avezinha amanhecida…

.

Teresinha garota e traquina esfuziava, pelo velho liceu da Praça do Coronel Pacheco, como rastilho lúdico, estralejando risos e conquistando simpatias. Qual das suas antigas condiscípulas a recorda sem saudade?!…

.

Ai, as aulas do primeiro ciclo, com Teresinha, criança, sobre um banco para chegar ao quadro!…

.

Ai, as molhadelas até aos ossos, e os sapatos alagados!…

Ai, os sustos da “pedra-do-estiquete!…”

Ai, a figura sinistra e de negra, da talvez ex-freira!…

Ai, o grande casarão monástico, transformado em cortiço minérvico de avelhinhas esculpidas em corolas rociadas!

.

Teresinha cresceu. Fez-se senhora. Já não saltava às cordas ( “zás! zás! zás!” ), os pés muito juntinhos, aos pulos saltando e saltando, - e a corda vermelha descendo e batendo( “prás! prás! prás!” )

.

Teresinha cresceu…

.

Casaquinho vermelho, de botões prateados, e saia escocesa; livros entalados no braço; na cabeça uma boina clara; no rosto uma larga pincelada de sol, onde bailavam sombras oscilantes de roseiras, e brilhavam dois olhos luminosos e meigos, semicerrados pela violência da luz estival, - estou a vê-la chegar das aulas. Do alto do patim da escada, junto da qual floriam jarros, quantas vezes a esperei! E ela, ao ver-me esperá-la, a sorrir:

.

-“Olá! Está aí?!”

- “Não! Estou lá fora!”

.

Teresinha parava. Olhava-me, entre risonha e trocista:

.

- “Com que então o “senhor” está lá fora?! Ora não querem lá ver!!!”

.

E porque era transmontana, e achava deliciosos, e saborosamente arcaicos, certos termos e expressões da sua terra: ( - “Dê-me um cibinho de pão!”; -”Colhi um mandil de casulas chicharas…”; - “Estava arrimado ao fundo das escaleiras” ), por vezes rematava apenas:

.

- “Ora não?!”

.

No ar cruzavam-se borboletas brancas, e diluíam-se vagos perfumes de roseirais em flor!

.

Ao longe, gemiam rolas…

.

Lembras-te desse tempo, Teresinha? Tu lembras-te?

.

“Ora não”?

.

Como areia fina entre dedos de criança, o tempo fugiu imperceptivelmente…

.

Teresinha acalenta os filhos. Por duas vezes ela os vê florir entre os seus braços:

.

- “Já se quer erguer!”

- ”Já tem dois dentinhos!”

- “Já começa a andar!”

- “Já diz: “mamã!”

.

Já diz mamã! Teresinha mamã, sente-se inundada de felicidade!

.

Aperta ao coração os pequeninos que Deus lhe deu, e ergue os belos e grandes olhos castanhos para o azul do céu…É de lá, desse lago aéreo onde vogam as pombas, que descem os anjos pequeninos!…

.

- “Já se quer erguer!”

- ”Já tem dois dentinhos!”

- ” já começa a andar!

- “Já diz: “mamã!”

.

Lembras-te desse tempo, Teresinha? Tu lembras-te?

.

“Ora não”? “ora não”, Teresinha?

.

Na sua cama de doente, debaixo de uma colcha alvíssima e bem esticada, Teresinha geme baixinho. Sobre os grandes olhos castanhos, como sobre o seu espírito, que tão luminoso foi, desceu a treva. Lá fora também há escuridão: a escuridão da noite e das almas! E há gemidos: os do vento de Novembro, envolto em bátegas de chuva e de granizo…Noite de lágrimas!…

.

Lutando contra tudo e contra todos, os filhos conseguem chegar à sua cabeceira. Afagam-lhe a cabeça torturada; beijam-lhe o rosto crispado; apertam entre as suas mãos de homens as mãos femininas que lhes ampararam os primeiros passos…Mas Teresinha é tão infeliz que não se apercebe da sua presença, e continua a gemer baixinho…

.

Ai, a corda vermelha descendo e batendo!

Ai, os pés de Teresinha pulando e saltando!

Teresinha menina…

Teresinha estudante….

Teresinha mulher….

Teresinha mamã….

.

Chamava-se Teresinha, e fazia hoje anos!

Pobre Teresinha!

 

PINHO DA SILVA  -  (1915 - 1987) Escritor, redactor do “Jornal do Turismo”, responsável pela secção “Apontamentos”, do matutino “O Comércio do Porto”, e “Crónicas Lusíadas”, no “Mundo Português", do Rio de Janeiro. Secretário Geral da ACAP. 



publicado por Luso-brasileiro às 17:10
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