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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - AQUELA QUE ENFRENTOU O MEDO

                       

 

 

A Igreja celebrou, no último dia 22 de julho, a festa de Santa Maria Madalena – Maria de Mágdala, Miriam de Mágdala -, mencionada dentre os discípulos de Jesus Cristo, que mereceu ser a primeira a vê-Lo vivo para sempre na madrugada da Páscoa (Mc 16,9) e cujo culto difundiu-se, sobretudo, a partir do século XII.

A teóloga italiana, Lilia Sebastiani, em seu livro: “Maria Madalena – De Personagem do Evangelho a Mito de Pecadora Redimida” – Editora Vozes – 1995, distingue as outras duas mulheres que costumavam fundir nela: Maria de Betânia e a pecadora, de cabelos longos, que lavou com lágrimas os pés de Jesus. O teólogo e sacerdote ortodoxo Jean-Yves Leloup, no livro “Jesus e Maria Madalena – Para os puros tudo é puro” – Editora Vozes – 2007 -, citando os estudos de alguns exegetas, não estabelece essa diferença. Acredita ser a mesma e que, em cada uma de suas fases, no período de convivência com Jesus Cristo, se manifesta uma metamorfose do desejo e um novo semblante de mulher: a penitente que chora aos pés do Mestre (Lc 7, 36-40),  a contemplativa que, em Betânia, irmã de Marta e Lázaro, detém-se para ouvi-Lo (Lc 10, 38-40) e  a que O segue, juntamente com os doze e algumas outras mulheres (Lucas 8,1-3).

Sabe-se a respeito de Maria Madalena, uma mulher excluída, que era “possessa” e pecadora. Dela, Jesus expulsou sete demônios. Para São Gregório Magno, como com os sete dias se entende o conjunto do tempo, assim, com o número sete se representa justamente a totalidade. Maria teve, portanto, sete demônios, no sentido de que foi repleta de todos os pecados. Os demônios são entendidos, em sentido moral, como emblema dos sete pecados capitais e, portanto, do pecado na sua globalidade.

A libertação dos demônios, que a aprisionavam, tornou-se salvação integral, mudança de vida. Entendeu que tudo aquilo que não é assumido não é salvo e que a conversão, conforme São João Damasceno, é o retorno do que é contrário à natureza, para o que lhe é próprio.

No contato com Jesus Cristo, tomou para si a grandeza do projeto humano, seu sentido, sua beleza e também suas exigências. Constatou o que concluiu Nietzsche: “No verdadeiro amor, a alma é que envolve o corpo”. Com Jesus aprendeu o que é a castidade: respeitar o outro como sujeito, sem transformá-lo em objeto de fruição ou de consumo e a felicidade: algo de sagrado, ter Deus no Espírito. Crescida no espírito, teve com Jesus um relacionamento discipular, uma intimidade afetiva, intelectual e espiritual.

Em e por Jesus Cristo, enfrentou as suas desconfianças e os seus medos. Aproximou-se do Santo por excelência. Assumiu-se como pecadora, sem se justificar nos outros. Mudou de olhar e se salvou de sua ignorância, de seu esquecimento do Ser, de onde ela viera, para onde ela iria, tornando-se livre de seus apegos e de suas identificações com o que ela não era realmente. Seguiu-O até a morte sobre a cruz e a sepultura, no momento em que todos os discípulos homens, com exceção de João, fugiram. Cuidou de Jesus, fazendo-se presença, no momento em que Ele parecia abandonado. Ele que cuidara dela no sofrimento e na precariedade, que viera para os de coração e alma doentes, que não se importava ao falarem que Se sentava à mesa com os pecadores.  Diante dos seres celestiais, quando voltou ao túmulo do Senhor, teve medo, mas não se afastou.

A teóloga Sebastiani afirma, em suas conclusões, que, para Jesus Cristo, toda salvação não pode ser senão um fato de reciprocidade. Iacopo de Varazze (Arcebispo de Gênova – 1229-1298), autor do livro “Legenda Áurea”, coloca, dentre as razões de Jesus ter aparecido a ela, antes do que aos outros: ela o amava ardentemente e para mostrar que morreu pelos pecadores. Maria Madalena não identificara Jesus ao vê-Lo, mas O reconheceu quando a chamou pelo nome. Ouviu o chamado e se tornou testemunha da Ressurreição.  Afrontou o revés, o absurdo e a morte. Olhou de frente a perda, inclinou-se no túmulo e constatou que estava vazio. E seu amor, mais forte do que a morte, possibilitou o reencontro com seu Mestre ressuscitado.

Em Maria Madalena, a certeza de que excluir não é de Deus e um viva ao verdadeiro Amor, que só e possível possuir ao ser doado!

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE É coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher/Casa Maria de Mágdala e autora de “Nos Varais do Mundo/ Submundo” –Edições Loyola.



publicado por Luso-brasileiro às 11:01
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