PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 28 de Agosto de 2010
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - ENQUANTO ISSO, NO SUPERMERCADO...

                      

           

 

            Chega uma determinada hora na semana em que, por mais doloroso que seja, precisamos reabastecer a dispensa. Fazer compras é uma coisa híbrida: meio boa e meio ruim. É inegável que há um prazer oculto em fazer compras, em poder escolher guloseimas, pequenos pecadinhos comestíveis, além de conhecer os novos produtos que são lançados para as mais variadas funções domésticas. Por outro lado, há uma gama de situações que podem transformar uma simples visita ao mercado em um evento deveras desagradável...

            Um dos problemas de se fazer compras é se empolgar demais e não se atentar para o fato de que tudo na vida tem um preço, essencialmente as coisas que estão nas prateleiras! Creio que boa parte das pessoas leva, vez ou outra, um susto ao ver o montante a ser pago. Ainda que se tenha o dinheiro na conta, a gente não se livra, só por isso, de pensar que poderia ter pego menos coisas, que já era hora de fazer um regime mesmo e que é comida demais...

            Fazer compras com pressa, entre um compromisso e outro, na ilusão de que se vai gastar nisso somente o tempo planejado, é um prato cheio para dissabores. Claro que é recomendável, para isso, evitar horários de pico e estabelecimentos muito freqüentados, mas nada disso é suficiente, eis que nunca se sabe quem nos dará a honra de estar a nossa frente na fila do caixa...

            E foi assim que nossa saga começou. Era uma tarde de sábado e tudo levava a crer que a hora era boa para comprar o que já estava faltando em casa. Não compraríamos muita coisa, de forma que deveríamos voltar logo, até para podermos aproveitar o resto do dia para outros afazeres.  Assim, empunhando nossas sacolas retornáveis, ecologicamente corretos, percorremos os corredores do supermercado de bairro no qual costumamos fazer compras. Com preços razoáveis e longe da agitação, dificilmente nos colocava em filas gigantescas.

            Compras feitas, menos de quinze minutos após entrarmos, já estávamos na fila do caixa. Apenas uma mulher estava a nossa frente. Fui colocando as compras na esteira, na ponta, para ir adiantando as coisas, mas foi nessa hora que fui tomada de um mau pressentimento: a mulher começou a conversar demais com a atendente e eu sabia que, pela postura da moça, isso era não era um bom sinal.

            A freguesa, uma gordinha com jeito de hippie aposentada, perguntava para a caixa:

_Então, ele vai vir aqui buscar essas coisas, que eu vou deixar separadas!

_ A senhora não vai levar isso agora?

_ Hein?

_ A senhora não vai levar isso agora?

_ Ah, não. Eu não agüento, ele passa aqui e pega. “Peraí”, eu vou ligar para ele... Oi, André, você vem buscar a ração aqui no mercado? A moça vai guardar. Não, não sei quanto deu ainda. Ah, mais tarde eu te ligo, mas tá tudo bem aí?  Ah, entendi... Hein? O quê? Não, vou levar para os gatos também... Tá, então tchau...

_ E então minha senhora? Vai pagar como?

_ Cartão. Peraí, essa ração tá marcando quanto aí na sua tela? Onze reais?!! Que absurdo. Tá errado isso! Lá no outro é só nove... Ah, não vou levar não! Pode ir alguém lá buscar então a de nove reais...

_ Essa ração sempre custou esse preço senhora...

_ Nada disso! Eu sei que não.  Assim eu não compro.

_ Tudo bem, eu vou estornar. Ô Adelaide, vai lá na prateleira e pega aquela ração de nove reais o saco. Isso Adelaide, o saco de 8 quilos. Pega lá e traz aqui.

Cinco minutos e lá vem a Adelaide, com cara de poucos amigos. A essa altura, eu já estava concentrada na história, puta da vida, já quase oferecendo os dois reais da discórdia, só para poder ir embora. Olhei para os lados e só havia o caixa preferencial, repleto de terceira e quarta idade... Melhor ficar por aqui mesmo, já deve estar tudo resolvido agora.

_ Mas eu tô vendo que ainda tá marcando a ração de onze reais...

_ Não está não, eu cancelei.

_ Hein?

_ Eu C-A-N-C-E-L-EI, senhora. A senhora quer pagar como?

_ Cartão de crédito. Mas quero pagar em duas notas diferentes.

_ Com dois cartões, a senhora diz?

_ Hein? Não. No mesmo, mas em notas diferentes. Em uma, passa só a ração dos gatos e a dos cachorros. Mas olha lá, não vai passar a de onze reais...

_ Não senhora, pode deixar. Agora deixa eu ver onde estão as rações, porque a senhora passou tudo misturado.

_ Hein? Mas é só separar... O que são esses números aí do lado? Eu não tô entendendo. Porque tá marcando essas coisas??? Não deu isso a compra.

_ (Respirando fundo) Não senhora, não é isso não. São códigos da loja. O que for alimento dá para parcelar.

_ Dá para parcelar a ração? Quanto deu?

_ Dezessete reais tudo. A senhora quer parcelar???

_ Hum... Em quantas dá para fazer?? Hum... acho que não.

_ CPF na nota?

_ Sim. E a outra parte da compra, quanto deu?

_ Trinta reais.

_ Dá para parcelar??

_Dá. A senhora quer???

_ Hummmm, não. Não esquece que o André vai passar aqui para pegar as rações.

_ Pois não. “Vou estar deixando” aqui do lado para ele pegar. Qual o nome da senhora?

_ Hein? Não entendi...

_ Nada não. Tenha uma boa tarde...

Vinte minutos nessa brincadeira e eu queria matar a mulher... Senti pena dos cachorros dela, não por comerem comida vagabunda, ou por terem uma dona mão de vaca, que comprara um monte de maços de cigarro sem brigar pelo preço, mas por terem alguém tão chato como dono. Olhei para a cara da moça do caixa, visivelmente exausta, ao que ela me disse:

_ CPF na nota? Vai querer parcelar a compra?

Olhei bem na cara dela e não resisti:

_ Hein?????

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA- Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo

 



publicado por Luso-brasileiro às 16:02
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