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Quinta-feira, 29 de Março de 2018
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - AINDA SOBRE O DEMÔNIO DO MEIO DIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vimos, no artigo anterior, como a expressão “demônio do meio dia”, que figura no Salmo 90, foi objeto de interpretações muito diversas, ao longo da história, por parte dos comentaristas das Escrituras. É uma expressão de sentido misterioso, que sempre desafiou e continuará a desafiar a argúcia dos exegetas.

Gostaria de acrescentar, ao que ficou dito no artigo anterior, uma referência ao célebre romance Le Démon de midi, de Paul Bourget (Paris: Plon-Nourrit, 1914, dois vols., 317 e 377 pp.), membro da Academia Francesa.

Paul Bourget, nascido em Amiens, em 1852, e falecido em Paris no ano de 1935, foi escritor prolífico e extremamente popular em seu tempo. Seus numerosos romances alcançavam tiragens enormes e eram lidos avidamente não só na França, mas em muitos outros países. Aqui mesmo, no Brasil, seus livros tiveram ampla divulgação, pois ainda hoje é relativamente fácil encontrar em sebos edições francesas de seus livros, todos invariavelmente estruturados em torno de análises psicológicas muito profundas. A partir da conversão ao catolicismo de Bourget, ocorrida por volta do ano 1900, seus romances passaram a ter uma discreta, mas nítida inspiração religiosa. Reagindo ao mesmo tempo contra o romantismo e contra o naturalismo realista, Bourget propendeu para a exposição pormenorizada das psicologias dos seus personagens e dos dramas existenciais que eles viviam. Seus romances só são entendidos e devidamente apreciados por pessoas maduras e de feitio de espírito crítico e analítico. Leitores superficiais de hoje em dia não conseguem acompanhar o fio da narrativa bourgetiana, que fazia os encantos do grande público de um século atrás.

Em “Le Démon de midi” é descrita, de modo vivo, realístico e mesmo não isento de certa crueza, a trajetória psicológica de Savignan, um católico militante que, levado por um fundo de orgulho e auto-suficiência, por sua falta de espírito sobrenatural, de vigilância e de ascese, pela revivescência de lembranças da mocidade, e pelas circunstâncias da vida, acaba desviando-se do seu dever, e entregando-se a uma paixão adúltera e pecaminosa.

Bourget apresenta a meia idade, a idade madura (o “herói” do romance tem 43 anos), como sendo a fase entre todas perigosa, em que muitos, tentados pelo terrível demônio do meio-dia, se perdem, desprezam e jogam fora todo o bem que fizeram até então, e se precipitam num caminho oposto. Um trecho do livro resume bem esse pensamento. É um dos personagens, o beneditino Dom Bayle, que afirma, comentando precisamente os versículos 5 e 6 do salmo 90:

 

“Para eles (os antigos) o daemonium meridianum era um verdadeiro demônio; a tentação do meio dia especial nos claustros. Haviam observado que a hora sexta, nosso meio dia, é temível para o religioso. O cansaço do corpo, esgotado pelas vigílias e pelo jejum, ganha a alma perturbada. Aumenta a acédia, esse desgosto, essa tristeza das coisas de Deus que dá ao cenobita a nostalgia do século abandonado, o desejo de uma vida diferente, uma revolta íntima e profunda; esse é o Demônio do meio dia. Pois eu dou o mesmo nome a outra tentação e não creio faltar ao respeito devido às Sagradas Escrituras, que sempre comportam mais sentidos que a mera interpretação literal. Essa tentação é a que assedia o homem, não na metade de um dia, mas na metade de seus dias, na plenitude de suas forças. Até aí ele conduziu seu destino de virtude em virtude, de triunfo em triunfo. Mas eis que o espírito de destruição se apodera dele - quer dizer, o espírito de sua própria destruição. Uma força inimiga, o aeternus hostis, o atrai para fora de seu caminho, para veredas em que ele perecerá. Essa estranha alucinação vai do espiritual ao temporal. É, na ordem da história geral, Bonaparte, em 1809, empreendendo a guerra de Espanha; seu sobrinho, cinquenta anos mais tarde, a da Itália. E numa outra ordem, o Victor Hugo de Feuilles d'automne  e o Lamartine de Harmonies, tentados pela política. Bem sabeis para onde ela os conduziu. É, numa outra ordem ainda, e para nós mais grave, Lamennais e Lacordaire fundando L'Avenir  e chegando à terrível encruzilhada de 1833, na qual o Demônio do meio-dia  os esperava, para ser vencido por um e para  perder o outro” (op. cit., vol. I, pp. 8-9).

 

A meu ver, essa referência ao romance de Bourget, longe de ser extemporânea, completa adequadamente o esforço exegético efetuado a partir de fontes antigas.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:49
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