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Sábado, 30 de Junho de 2018
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - ADIPOSIDADE PAPELISTICA

 

 

 

 

 

 

 

 

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Teoricamente, um Diário Oficial publica o que é essencial para a História, aquilo que é oficializado e tornado público justamente porque não pode ser esquecido. A escola historiográfica positivista, do século XIX, idolatrava os Diários Oficiais. Essa escola desejava aplicar à História, uma ciência humana, a metodologia e o rigor das ciências exatas. Desejava “matematizar” a História, como também o Direito, a Psicologia e todas as demais áreas do conhecimento que hoje designamos como Ciências Humanas... Para os historiadores dessa corrente, somente documentos escritos e oficiais seriam fontes seguras e confiáveis para que uma História verdadeiramente científica pudesse ser escrita. Essa ideia cerebrina, ao longo do século XX, foi não apenas desmentida, mas ridicularizada de todos os modos nos meios acadêmicos. E com toda a razão. Imagine-se alguém que desejasse escrever a História do Brasil no século XX, baseado exclusivamente nos Diários Oficiais!!!

Não nego, obviamente, que devam existir Diários Oficiais. Alguma utilidade é claro que eles têm. Mas poucas coisas são tão representativas do vazio e do oco do sistema administrativo moderno quanto um Diário Oficial. Poucas coisas mostram tanto a decalagem profunda entre o País real e o país fictício da burocracia quanto um Diário Oficial.

No dia 30 de novembro, pela última vez, o Diário Oficial da União deixou de ser publicado em papel. Desde 1º. de dezembro corrente, a publicação, que já conta com 155 anos de publicação ininterrupta, passou a ser apenas eletrônica, sendo acessível aos interessados pelo site www.imprensanacional.gov.br.

"Esta medida é reflexo dos tempos, em que a leitura é um hábito mais forte em dispositivos eletrônicos. É, também, reflexo de compromissos com a sustentabilidade que o Brasil tem que, continuadamente, cumprir", declarou Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, ao anunciar a medida.

Segundo fontes do Governo Federal, a economia será grande. 720 toneladas de papel eram, anualmente, gastas com a impressão do órgão, a um custo de aproximadamente 2,5 milhões de reais por ano. Além dos gastos com a impressão, havia também as despesas de distribuição e estocagem, o que, no total, significará que 12 milhões de reais serão poupados a cada ano.

O Diário Oficial da União, realmente, consumia muito papel. A edição de 30 de novembro último, por exemplo, tinha 240 páginas. Mas já houve edições muito mais volumosas. Ficou famosa a do dia 24 de abril de 1998, que até entrou no Guiness Book of Records, pela sua adiposidade papelística: tinha  2.244 páginas e pesava 5 quilos e 550 gramas!

Foi o record mundial, batendo até mesmo o "New York Times", que no dia 14 de setembro de 1987, domingo, atingira 1.612 páginas, com 5 quilos e 400 gramas de peso. No caso do record brasileiro, o que engrossou a repolhuda edição foi a Seção I do Poder Judiciário, com 1.132 páginas, seguida de algumas centenas de páginas de questões técnicas do mesmo Poder Judiciário.

O espirituoso e implacável jornalista Carlos de Laet dizia que se alguém tem um segredo que seja absolutamente necessário guardar por escrito, mas que seja tão secreto que ninguém possa dele tomar conhecimento, deve publicá-lo no Diário Oficial. Fica escrito e não há perigo de alguém ler...

De fato, achar alguma coisa nessa massa de informações impressas é o mesmo que achar agulha em palheiro.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por Luso-brasileiro às 15:08
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