PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 12 de Julho de 2018
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - OPORTUNA INICIATIVA PARA REVIGORAR A ARTE DOS PRESÉPIOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os presépios são representações artísticas do cenário singelo e ao mesmo tempo rico em simbolismo da gruta de Belém, na qual nasceu Jesus Cristo, o Filho de Davi, o Esperado das Nações, Aquele que reconciliaria, por sua Paixão e Morte, a humanidade pecadora com o Criador.

Os Evangelhos são extremamente parcimoniosos no relato das circunstâncias concretas que cercaram o Natal. Dois Evangelistas, Marcos e João, silenciaram de todo. São Mateus, numa única frase, registrou que Jesus nasceu em Belém de Judá no tempo do rei Herodes, e logo a seguir passou ao relato da visita dos magos que vieram do Oriente, guiados pela estrela, para adorar o Menino (Mt, 2,1-12). São Lucas, o que mais extensamente tratou do acontecimento, limitou-se a dizer que José e Maria não encontraram alojamento na estalagem e por isso o Menino nasceu numa manjedoura, foi envolto em panos e ali recebeu a visita dos pastores (Lc 2,1-20).

Na tradição eclesiástica, em parte baseada em elementos confiáveis de alguns apócrifos muito antigos, firmou-se a ideia completa da gruta e dos animais que compuseram o quadro. Manjedoura, ou presépio, era o recipiente em que os animais comiam; essas mesmas palavras, por extensão, também podiam designar o estábulo ou aprisco, local em que os animais eram recolhidos à noite; tais abrigos, na região de Belém, geralmente eram localizados em grutas naturais. A presença do boi e do asno, reconhecendo e adorando o seu Senhor, foi textualmente registrada no apócrifo Evangelho do Pseudo Mateus (cap. XIX), que influenciou bastante a literatura e a arte medievais. Essa presença tem alguma base escriturística na aplicação, endossada pela autoridade de São Jerônimo (Epitaphium Sanctae Paulae, 10), de uma passagem do Profeta Isaías: “O boi conhece o seu dono e o jumento conhece o presépio do seu senhor, mas Israel não me conheceu e meu povo não teve inteligência” (Is 1,3).

A tradição, a piedade e a livre imaginação dos fiéis produziram, ao longo dos séculos, incontáveis representações de presépios, desde as mais simples e ingênuas, até as mais especiosas e requintadas. Os elementos essenciais do presépio são, evidentemente, Jesus, Maria e José. Elementos acessórios, mas quase indispensáveis, são o jumento e o boi. Quanto ao mais, a imaginação é livre. Não há limites para ela. A variedade é imensa e é inesgotável.

São Francisco de Assis, no início do século XIII, teve pela primeira vez a ideia de formar presépios vivos. Realizou seu intento na cidade italiana de Greccio. Coube à espiritualidade franciscana colocar os presépios tão no foco da devoção e da arte no mundo inteiro, mas já muito antes disso havia representações iconográficas e iluminuras natalinas. Algumas bem antigas foram preservadas até hoje, como por exemplo o afresco, provavelmente do século IV, que se vê numa das galerias do cemitério de São Sebastião da via Ápia; nele aparecem o boi e o jumento, ajoelhados diante do Menino-Deus envolto em panos.

Nenhum símbolo natalino é tão completo e tão universal quanto o presépio. A árvore de Natal, de origem germânica, o Papai Noel (modo artificial e pouco piedoso de laicizar a figura clássica do bispo São Nicolau), a estrela de Belém, os sinos - tudo isso exprime o Natal, sem dúvida, mas nenhum de modo tão perfeito quanto o presépio. Infelizmente, na vida moderna descaracterizou-se de todo o autêntico espírito de Natal e por isso até mesmo representações do presépio são prejudicadas por elementos que as distorcem.

Uma oportuna iniciativa está sendo tomada, em Santiago de Cacém, na província portuguesa do Alentejo, para restaurar a velha e venerável tradição dos presépios portugueses. Meu amigo Dr. José António Falcão - membro da Academia Portuguesa da História, autor de numerosos livros sobre museologia e História da Arte Portuguesa, alguns dos quais premiados pela UNESCO - e sua esposa, a conservadora-restauradora Sara Fonseca Falcão, articularam os esforços de um numeroso grupo de pessoas e estão lutando para restaurar no Alentejo a tradição do verdadeiro presépio português. No antigo quartel dos bombeiros de Santiago do Cacém, foi montado e estará aberto ao público neste mês de dezembro, um autêntico presépio lusitano. Durante o período, uma intensa atividade cultural será realizada, com conferências, concertos musicais e visitas guiadas. O objetivo é bem claro: preservar e revigorar a arte dos presépios, renovando-a criteriosamente, mas sem romper com o espírito tradicional.

Transcrevo da nota de imprensa que recebi as próprias palavras do Dr. José António Falcão, que além de idealizador da iniciativa é também dirigente da entidade que o está promovendo, o Centro UNESCO de Arquitetura e Arte (UCART): “O presépio português faz parte de uma rica tradição europeia, mas tem personalidade própria, em que marcam presença as cenografias baseadas em paisagens naturais, a multiplicação de cenas da vida rural e urbana, a alternância de escalas e o destaque conferido à Sagrada Família, que é o seu epicentro. Não se trata de manter a arte presepística como algo parado no tempo, há todo um espaço de inovação a valorizar, mas o que ocorre agora é uma amálgama de coisas sem sentido e sem gosto, que perturba inclusivamente a captação da mensagem de fundo do Presépio”.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOSé historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História



publicado por Luso-brasileiro às 11:11
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links