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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - CORRIDAS DE TOUROS E SAUDADES DE HERNÂNI

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há duas semanas, transcrevi nesta coluna trecho do livro “Ordem e Progresso”, de Gilberto Freyre, sobre os nomes preferencialmente adotados para batizar crianças nascidas no Brasil, na última década do século XIX e nas duas primeiras do século XX.

No mesmo livro, encontrei uma curiosa ilustração, com propaganda fac-similar estampada no jornal carioca A IMPRENSA FLUMINENSE, de 21 de maio de 1888. Transcrevo com a ortografia da época o respectivo texto:

"Quarta-feira, 23 de Maio: Grande e admiravel corrida por conta do artista portuguez Francisco Pontes de 8 bravos e valentes touros escolhidos com todo o esmero. Ás 8 1/2 horas da noite. Será toureado o grande e valente touro portuguez do qual os amadores se devem recordar bastante. Este valente animal foi gentilmente offerecido pelo seu proprietario, o Exm. Sr. Barão da Taquara, para ser bandarilhado pelo bem recebido espada JOSÉ JEMENEZ (El Panadero) e o applaudido artista FRANCISCO PONTES. O celebre hercule francez o lutador Mr. Jules Mollnas, unico rival dos celebres hercules BATAGLIA e BARTOLLETTI, pegará á unha um bravissimo touro. Será corrida uma bravissima vacca. O amador FREITAS, que tanto enthusiasmo tem causado, toureará um bravissimo touro. É cavalleiro nesta corrida o bem recebido cavalleiro amador Henrique José Duarte. O resto dos bilhetes á venda por especial obsequio da charutaria Neves, rua de Gonçalves Dias n. 77, esquina da rua do Ouvidor." (op. cit,  3a. edição, José Olympio, Rio, 1974).

Pouca gente sabe hoje em dia, mas no Brasil havia touradas, até um passado não muito remoto. Mais precisamente, até cerca de 100 anos atrás. Essa tradição luso-espanhola foi preservada em vários países hispano-americanos (por exemplo, México e Colômbia), mas perdeu-se completamente no Brasil.

Minha avó materna, nascida em 1880 em Portugal, veio menina de 6 anos para São Paulo, e contava ter assistido a muitas corridas de touros na praça da República, no centro de São Paulo.

 Perguntei certa vez ao saudoso amigo Hernâni Donato, presidente de honra perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo o porquê de terem acabado as touradas no Brasil. Hernâni, que já estava àquela altura com perto de 90 anos de idade, era uma enciclopédia viva sobre assuntos culturais e históricos do Brasil em geral, e de São Paulo em especial. Ele conhecia bem o assunto e respondeu com total segurança que as touradas, no Brasil, existiram em vários locais, mas parecem nunca ter despertado grande entusiasmo popular, diferentemente do que ocorreu com as cavalhadas e com as festas do Divino.

Segundo ele, as touradas deixaram de ser feitas entre nós por uma conjugação de dois motivos: de um lado, houve uma espécie de cansaço e desinteresse da população, e, por outro, também faltaram toureiros. Até cerca de 1915 ainda se realizavam, em alguns municípios do interior de S. Paulo, corridas de touros, mas já muito decadentes e descaracterizadas, incluindo elementos não tradicionais (por exemplo, um palhaço que fazia brincadeiras com o touro). Hernâni também se recordava de ter visto referências a uma toureira façanhuda que andou se apresentando no interior do Estado de São Paulo, mas não se lembrou bem do local. Disse que se encontrasse seus apontamentos a esse respeito, me telefonaria. Lamentavelmente, não encontrou, ou talvez se tenha esquecido de procurar. Tantos eram os consulentes que o procuravam que, se fosse atender a todos, não faria outra coisa na vida.

Quando estava à beira da morte, internado num hospital e lutando contra um câncer, pedia ao médico que lhe conseguisse mais um ou dois anos de vida, porque não queria morrer sem ter concluído quatro livros nos quais estava trabalhando...

Uma vez perguntei a ele como se fazia a iluminação das casas paulistas no século XVII. Ele respondeu, com toda a precisão, que antes da exploração sistemática do petróleo e da utilização do querosene, nas casas ricas se usava vela de cera, que também iluminava as igrejas. Nas casas pobres, se usava lamparina com óleo de baleia, produto abundante e barato que também servia como elemento aglutinador na argamassa de algumas construções.

Grande homem, o saudoso Hernâni! E pensar que já há mais de 6 anos nos deixou, em novembro de 2012!

 

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS   -    É licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 

 

 

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publicado por Luso-brasileiro às 11:19
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