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Sábado, 26 de Outubro de 2019
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - MEMORIA, ESQUECIMENTO E VERDADE - 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O mecanismo da memória, no espírito humano, é sinuoso, é muitas vezes inexplicado e inexplicável para a própria pessoa que procura recordar seu passado. É um exercício que mexe muito a fundo com as paixões e com as emoções individuais. Normalmente, nós nos lembramos bem daquilo que despertou em nós uma paixão muito profunda, favorável ou desfavorável. É difícil esquecer algo que nos agradou profundamente, como também não é fácil esquecer algo que nos magoou, que nos feriu, que nos fez sofrer muito.

O mecanismo da memória está profundamente ligado, na psique de nossa espécie, ao mecanismo do amor e do ódio. Em outras palavras, somos levados a dar importância e a reter na memória as coisas que muito nos agradam ou muito nos causam repulsa, e a não prestar atenção e rapidamente esquecer aquilo que nos é indiferente. Guardamos facilmente na memória a lembrança dos triunfos, das vitórias, dos elogios recebidos. Igualmente não conseguimos nos livrar da recordação traumática das derrotas, das humilhações, das injustiças que sofremos.

Esquecemos facilmente, isso sim, as coisas indiferentes. As coisas que não nos marcaram emocionalmente vão sendo varridas da memória e lançadas à vala comum do esquecimento. Dir-se-ia - para recordar a velha e querida Antiguidade clássica - que todos nós tomamos, a respeito das coisas indiferentes, aquela água misteriosa do rio Lethes, o rio que separava o mundo presente do inferno mitológico. As almas dos mortos atravessavam esse rio, na barca de Caronte, e sentiam muita sede. Bebiam, então, para se aliviar, a água do próprio rio, e com isso se esqueciam do seu passado. Os mortos que bebiam água do Lethes ficavam, de acordo com a mitologia grega, vazios, seres sem memória. Seriam como HDs de nossos modernos computadores, que tivessem todo o seu conteúdo deletado e fossem, ademais, reformatados. Tornavam-se aptos a, pela metempsicose, reencarnarem até mesmo em animais.

Pois bem, nossas vidas são cheias de fatos maiores ou menores que esquecemos... porque nos foram indiferentes. As águas seletivas do imaginário Lethes as varreram. Para nós, individual e subjetivamente, é como se nunca tivessem existido, é como se não fizessem parte da verdade.

“Verdade” é uma palavra que usamos a todo momento. Mas, que significa ela? O que é a verdade? Foi essa a pergunta que Pilatos fez a Jesus Cristo (Jo 18,38). Para os cristãos, Deus é a Verdade, Jesus Cristo é a Verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo, 14,6).

Na Antiguidade, para os gregos, a verdade era outra coisa. Em grego, verdade era aletheia, ou seja, não esquecimento, era o que não tinha sido apagado pela água do Lethes. O conceito de verdade, para os gregos, confundia-se, pois, com o de memória. Verdade era o que a memória tinha conservado.

No trabalho de seleção subconsciente do que deve e não deve ser lembrado, do que deve e não deve ser esquecido, cada um de nós é senhor de si, sem dúvida, mas somente até certo ponto. Se fôssemos senhores absolutos da nossa seleção, jamais esqueceríamos algo que nos interessasse; todos os estudantes tirariam nota 10 em todas as provas e exames; e, bem ainda maior, conseguiríamos esquecer completamente fatos que nos traumatizaram, nos feriram, nos magoaram. Só nos lembraríamos das coisas boas, agradáveis e úteis, sem nos preocuparmos com más recordações, com as que nos fazem sofrer e condicionam nossa felicidade.

A realidade concreta é que cada um de nós se lembra de muita coisa boa e, também, de coisas menos boas, que sinceramente, no mais íntimo de nosso ser, preferiríamos esquecer. A seleção do que nos ficou, nós mesmos fazemos, ao longo da vida, no plano consciente e, mais ainda, no subconsciente.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras e professor da Unisul. Também é Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por Luso-brasileiro às 14:47
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