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Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2020
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - TRANSIÇÃO DA ORALIDADE PARA A ESCRITA

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

              Desde os primórdios do gênero humano, teve várias fases a comunicação interpessoal. Na primeira, ela se fazia exclusivamente de modo oral. Durante muitos séculos toda a comunicação, toda a troca de informações, foi somente de boca a ouvido. A Ilíada e a Odisseia, as duas grandes obras da literatura grega que formaram e informaram a Paideia e influenciaram toda a cultura e a civilização ocidentais, foram compostas e declamadas durante séculos, passando oralmente através de sucessivas gerações. Só muito tempo depois de morto seu autor foram escritas e, assim, puderam chegar até nós. Numa segunda fase, surgiram a escrita e a leitura. Inicialmente precedidas de representações pictóricas ou rupestres, depois de caracteres ideográficos, os quais pouco a pouco evoluíram para as letras.

       Durante muitos e muitos séculos, coexistiram as comunicações orais - para a imensa maioria das populações não alfabetizadas - e as escritas, privativas do pequeno número dos que sabiam ler e escrever.

       A leitura e a escrita não foram, durante muito tempo, consideradas conhecimentos indispensáveis para muitas funções até bem importantes. Reis, imperadores, grandes chefes militares não sabiam ler nem escrever e não se sentiam nem um pouco humilhados por isso. Para ler e escrever havia letrados e amanuenses, postos a serviço dos senhores.

       Depois da invenção da imprensa, no século XV, cada vez mais se generalizou o conhecimento escrito. Cada vez maiores parcelas da população foram tendo acesso a tal conhecimento.

       Já no decurso do século XX, rapidamente se sucederam as transformações. A comunicação continuou a se fazer por escrito, mas foram surgindo e se tornando preponderantes outras formas de comunicação: a visual, com a generalização das fotografias, com a proliferação de revistas ilustradas e dos famosos gibis, que nossos avós proibiam nossos pais de ler. Veio depois a televisão, resultado da combinação de duas invenções pouco anteriores: o rádio e o cinema. De tal forma a preponderância das imagens tendeu a se impor sobre a da escrita, que já na década de 1970, o Papa Paulo VI afirmou que a humanidade podia ser considerada vivendo numa nova civilização, que designou como civilização da imagem. Assim se exprimiu ele:

“Nós sabemos bem que o homem moderno, saturado de discursos, se demonstra muitas vezes cansado de ouvir e, pior ainda, como que imunizado contra a palavra. Conhecemos também as opiniões de numerosos psicólogos e sociólogos, que afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra, que se tornou praticamente ineficaz e inútil, e estar a viver, hoje em dia, na civilização da imagem.” (Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8-12-1975)

       Vieram, mais tarde, o computador, facilitando muito a escrita e a leitura, e a internet, facilitando as comunicações - o que representou outra verdadeira revolução tecnológica. O correio eletrônico e os mecanismos de busca rápida já há mais de 20 anos fazem parte integrante da nossa rotina diária. Vieram, ainda, videoconferências, chats, sites de relacionamento, bancos de dados e muitas outras coisas. Os recursos multimídia, combinando textos escritos, imagens, sons, filmes e animações diversas, conferem um dinamismo e uma vitalidade extraordinária ao processo cognitivo.

       Não sabemos que novos passos dará a tecnologia, nessa caminhada. Nossa geração já viu transformações enormes e provavelmente ainda presenciará a muitas outras. O fato é que todos esses recursos podem ser e são aproveitados no ensino. Vencendo as distâncias enormes do país enorme que é o Brasil, inserido no contexto de um mundo que cada vez mais constitui uma só aldeia global, os recursos multimídia são utilizáveis pelos professores de ensino presencial e, sobretudo, de ensino a distância.

       São evidentes as vantagens que esses recursos possibilitam para, por exemplo, a realização de videoconferências que, num auditório virtual, permitem a comunicação instantânea e a interação efetiva de pessoas fisicamente distantes.

       A internet é uma fonte praticamente inesgotável de informações, capazes de satisfazer a mais exigente das curiosidades. Mecanismos de busca, como o Google, numerosas obras integralmente disponíveis na rede, bancos de dados de bibliotecas e arquivos, documentação primária digitalizada, e-books - tudo isso está colocado à nossa disposição.

       Um pouco de bom senso e, sobretudo, de senso crítico é indispensável para a filtragem e seleção das informações. Assim como na comunicação oral sabemos que nem tudo o que é ouvido é verdadeiro, também na comunicação global da internet é preciso avaliar as fontes e, em função disso, aproveitar ou rejeitar suas informações.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras e professor da Unisul. Também é Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:20
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