PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 24 de Maio de 2015
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - AVIAÇÃO E BLINDADOS NA GUERRA DE 1914 - 18

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Primeira Guerra Mundial assistiu ao surgimento de dois novos e mortíferos instrumentos de luta. Refiro-me ao avião e ao carro de combate, novidades que trariam grandes consequências para a evolução do pensamento militar no período entre Guerras.

Nos início do conflito, os aeroplanos foram utilizados quase exclusivamente em missões de reconhecimento, para espionarem a retaguarda das forças inimigas e acompanharem os deslocamentos de suas tropas. Nas primeiras semanas, era comum se cruzarem, nos ares, aviadores inimigos e até se saudarem, batendo ambos continência... Mas logo ocorreu que passaram a trocar tiros de pistola ou carabina, e começaram os primeiros duelos aéreos, geralmente acompanhados pela “torcida” que, da terra, acompanhava os combates. Descobriram-se técnicas de correção de tiro, técnicas de colocação do adversário num ângulo morto em que ele ficava à mercê do antagonista e sem poder defender-se, depois os combates passaram a ser feitos com metralhadoras e descobriu-se - num grande avanço para a época - um sistema de sincronizar os disparos, de modo a que as balas passassem por entre as pás da hélice, sem atingi-las. A aviação de caça se desenvolveu extraordinariamente durante a Grande Guerra. Somente por exceção, durante esse conflito, foram usados aviões em missões de bombardeio. No período entre Guerras, porém, a aviação progrediu muito mais, os aviões aumentaram de tamanho e de autonomia de voo, passaram a poder voar em altitudes mais elevadas, de modo que a aviação se tornou uma arma autônoma nas Forças Armadas dos vários países e os aviões passaram a ser usados como bombardeiros e também para transporte rápido de tropas, para deslocamentos de paraquedistas e comandos. Igualmente a função de “limpar” o terreno adversário previamente ao avanço da infantaria, que outrora era função da artilharia, passou a ser atribuição da força aérea, por meio de bombardeios prévios. Sem o maciço bombardeio das praias da Normandia teria sido impossível o desembarque do Dia-D. Durante a Segunda Guerra, a aviação militar teve progressos ainda mais assinalados, chegando às super-fortalezas voadoras e, já no final do conflito, à aviação a jato.

Quanto aos carros blindados, remotos sucessores dos primitivos elefantes usados nas guerras da Antiguidade, eles foram episodicamente usados na Primeira Guerra, mas de modo muito restrito. Eram, na realidade, veículos simples, apenas protegidos por chapas de metal. Tinham como meta aliar a mobilidade dos veículos com a segurança de uma mini-fortificação. Eram, por assim dizer, pequeninas fortalezas móveis, mas ainda frágeis, não resistindo a projéteis mais potentes e carecendo de mobilidade em terrenos mais acidentados. Entre as duas Guerras, houve um grande progresso na blindagem e no sistema de locomoção dos tanques, que passaram a ter rolamentos com esteiras, adaptando-se melhor aos terrenos acidentados. Numerosos teóricos estudaram e aprofundaram o tema. Na Alemanha dos anos 1930, os tanques, estudados por Erwin Rommel, foram muito aperfeiçoados e produzidos em grande quantidade. Eles eram indispensáveis para a blitzkrieg (guerra relâmpago), permitindo rápido deslocamento das forças de combate, numa ação combinada de tanques, artilharia e aviação. Também nos Estados Unidos e na Inglaterra houve progressos nos tanques, no período 1918-1939.

Curiosamente, os aviões militares e os tanques tiveram origem na mesma tradicional arma: a Cavalaria. Tanto o tanque de guerra quanto o avião eram vistos, pelos que os usavam, como uma espécie de sucedâneo do antigo cavalo de guerra, com todo o simbolismo e o significado desse nobre animal.

No tocante à aviação militar, é facilmente acessível ao público brasileiro o livro intitulado “No tempo das carabinas” (Rio de Janeiro: Flamboyant, 1961), escrito pelo francês René Chambe, que foi um dos primeiros caças que combateram no ar, em 1914, e derrubaram adversários alemães. Teve um papel muito importante ao longo de toda a Guerra, na qual chegou a ser ferido. Continuou depois no Exército e atingiu o generalato no início da Segunda Guerra, quando comandou a aviação francesa na Bélgica. Sua visão do papel dos aviões na guerra, infelizmente, não tinha sido compartilhada pelo alto comando francês, assim como, paralelamente, este tampouco tinha dado ouvidos ao então Coronel De Gaulle, que propugnava uma intensificação do poderio dos carros de combate franceses. Chambe foi, depois da queda da França,em 1940, desmobilizado, mas continuou na resistência antinazista, atuando em várias ocasiões com heroísmo e acerto. Escreveu numerosas obras de história da aviação, sendo “No tempo das carabinas” a única traduzida para o português. É obra memorialística, que narra as apaixonantes aventuras da esquadrilha comandada pelo Major de Rose, no tempo em que os combates aéreos ainda eram feitos com carabinas. Vale a pena ler.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:53
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