PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 20 de Setembro de 2015
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - PARTIDOS POLÍTICOS E REPRESENTAÇÃO POPULAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É impossível estudar o tema partidos políticos sem tomar na devida conta a noção de representatividade, que é indissociável da democracia moderna.

Numa democracia da Antiguidade clássica, como a ateniense que Moses Finley tão bem estudou, era possível uma participação direta e sem intermediários de todos, ou pelo menos de todos os cidadãos. Tal democracia direta ainda pode, nos tempos modernos, existir em comunidades pequenas, muito específicas, como as de certos cantões suíços. Mas em sociedades maiores e mais complexas, a democracia direta é impossível. Faz-se necessária a intermediação de representantes. Numa sociedade complexa como a da maioria dos países modernos, são inevitáveis os conflitos de interesses, os entrechoques de opiniões. Nesse contexto, são também inevitáveis os partidos, que exprimem (como o próprio nome indica) as várias partes em que se divide a coletividade.

Os partidos não são inevitáveis como mal menor, mas são benéficos. Exercem uma importantíssima função social. São, de um lado, porta-vozes da opinião pública e, em sentido inverso, formadores da mesma opinião. São veículos de comunicação natural entre o Estado e os indivíduos particulares. São canalizadores dos anseios esparsos pela população, evitando sua caotização e dando forma coerente e articulada aos seus reclamos.

A noção de representatividade é, pois, fundamental para a compreensão dos partidos políticos. E justamente a carência de representatividade (decorrente da artificialidade dos partidos políticos, da falta de cultura política do eleitorado facilmente manipulável, da hegemonia esmagadora dos meios de comunicação social etc.) está na raiz de numerosas críticas feitas ao sistema político-partidário moderno em geral e ao brasileiro em particular.  A existência de partidos políticos ativos e legitimamente representativos, no seu conjunto, da totalidade da nação é, pois, “conditio sine qua non” da prática democrática.

É muito ampla a bibliografia existente sobre partidos políticos no Brasil republicano. O tema foi tratado por numerosos autores, dos mais diversos pontos de vista, no âmbito das mais diversas disciplinas: Sociologia, Ciência Política, Direito, Psicologia Social, sem esquecer, naturalmente, a área que mais particularmente me interessa, que é a da História.

A maior parte dos autores, aliás, aborda a matéria em perspectiva interdisciplinar. Essa interdisciplinaridade é quase forçosa, dada a natureza do tema.

Entre outros autores que trataram especificamente dos partidos políticos brasileiros, destaco os clássicos Afonso Arinos de Mello Franco, Vamireh Chacon, Bolívar Lamounier, Hélio Jaguaribe, Maria do Carmo Campello de Souza e, mais recentemente, Edgard Leite Ferreira Neto, Dalmo de Abreu Dallari e Claudia Sousa Leitão. Abordaram um tema mais amplo (a democracia brasileira, seus ideários, seus avatares, suas “crises de identidade”),  mas focalizaram bem o papel dos partidos autores como Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso, Cezar Saldanha de Souza Filho, Paulo Napoleão Nogueira da Silva, Alberto Aggio, José Pedro Galvão de Souza e outros mais.

E é impossível falar do assunto sem recordar uma obra clássica, de alcance muito mais geral, a qual foi reeditada, há alguns anos, pela Editora da Universidade de Brasília. Refiro-me ao bem conhecido livro “Sociologia dos Partidos Políticos”, do alemão Robert Michels.

Há, ainda, numerosas obras que estudam especificamente determinados partidos políticos brasileiros. Sem dúvida, o mais focalizado na bibliografia é precisamente aquele que, por certo, possui coerência ideológica mais marcada e mais facilmente identificável, o PCB-Partido Comunista Brasileiro. A UDN-União Democrática nacional, tão característica de uma época e de uma mentalidade, foi focalizada em numerosas obras, geralmente confrontada com os dois partidos que mais teve que enfrentar nas urnas, no período 1946 a 1964: o PTB-Partido Trabalhista Brasileiro e o PSD-Partido Social Democrático. O Integralismo, com seu sucedâneo Partido de Representação Popular, e mais recentemente o PT também têm trajetórias focalizadas em numerosos trabalhos.

Estudos sobre partidos políticos de âmbito estadual, ou sobre partidos políticos nacionais, mas focalizados numa ótica estadual, também são muito numerosos.

Um tema que não se confunde, mas que em alguma medida se interpenetra com o dos partidos é o papel político que, desde o início da república brasileira, em diversas circunstâncias as Forças Armadas têm chamado a si desempenhar.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

 

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:53
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links