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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - FONTES HISTÓRICAS DE PRIMEIRA GRANDEZA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No último artigo, comentei o talento de Homero como psicólogo e a extraordinária riqueza de tipos humanos bons e maus, heróis e anti-heróis, que ele conseguiu reunir na Ilíada. Falei também desse poema como constituindo uma parábola muito perfeita, representativa de todos os conflitos entre povos e nações, ao longo da História da Humanidade. Tal é a força da exemplaridade da epopeia homérica, que se tornou impossível o exercício da guerra, em qualquer época e em qualquer local, sem que continuamente se façam presentes, à maneira de referência, os personagens da Ilíada.

Recordo sempre o comentário que fez, durante a minha graduação em História, a Profa. Silvana Moretti, uma colega muito inteligente e com grande capacidade de síntese. Falando da permanente atualidade dos heróis homéricos e das figuras da mitologia grega, ela registrou o seguinte pensamento: “Hoje os ídolos são fabricados em agências de publicidade, e não pelo seu caráter moral, ético, altruísta; um ídolo moderno tem o tamanho do lucro que ele pode gerar para aqueles que o projetam. Incrível notar que a mitologia grega nos chega até hoje, e os nossos ídolos às vezes não duram mais do que um carnaval”.

A Odisseia também exprime, a meu ver, parabolicamente uma outra realidade humana, presente em todos os tempos. Ela exprime a vida atribulada do homem, com o seu processo vital, com suas atribulações e percalços, seus altos e baixos, seus triunfos e derrotas, suas esperanças e decepções - tudo isso em função de um fator de natureza superior, em função de suas relações com a divindade, com poderes que estão acima da natureza humana.

De fato, foi por ter desafiado o deus do mar, Posseidon, que Ulisses foi condenado a vagar dez anos pelos mares, antes de retornar à sua Ítaca tão desejada, onde o esperava a fiel Penélope e o filho Telêmaco, que ele somente vira recém-nascido ao partir para a guerra. Somente depois de se reconciliar com o deus ultrajado é que conseguiu atingir seu objetivo.

Ulisses, tão sábio e tão astuto, desafiou quem podia mais do que ele, e em consequência disso teve que passar por toda a sua odisseia...

O relacionamento do homem com o divino - que, aliás, na mitologia grega tem outro poderoso símbolo, que é o de Prometeu acorrentado - constitui, a meu ver, o eixo do drama expresso na Odisseia.

As figuras femininas de Penélope, a esposa fiel, e da serva também fiel que, ao lavar os pés de Ulisses reconheceu nele seu senhor, marcam com uma nota simpática o grande drama.  E como esquecer a figura não humana, mas carregada de sentimento, de Argos, o cão fiel que Ulisses treinara, antes de partir para a guerra, e que ficou 20 anos à espera do dono? Foi ele quem primeiro reconheceu, no velho mendigo em que se disfarçara Ulisses, o seu antigo senhor, e foi junto a ele, lambendo suas mãos, que exalou o seu último suspiro.

Muito mais haveria que dizer, acerca da Ilíada e da Odisseia. São obras-primas da cultura universal, de interesse perene, que transcendem os tempos e as eras históricas. Enquanto existir na face da terra a espécie Homo sapiens, haverá leitores e admiradores delas.

A par disso, refletem de modo muito perfeito e completo a vida e a sociedade do seu tempo, em todos os seus aspectos. Foi orientado pela leitura da Ilíada que o arqueólogo Schlliemann procurou, em fins do século XIX, as referências geográficas que o levaram até a descoberta das ruínas de Troia. E foi baseado, sobretudo, nos textos homéricos, completados colateralmente por pesquisas arqueológicas, que Émile Mireaux conseguiu traçar um retrato pormenorizado da sociedade grega antiga, no seu maravilhoso livro “A vida quotidiana nos tempos de Homero”, publicado em 1954 e logo transformado em clássico do gênero.

 Essa é uma utilidade, muitas vezes esquecida, das grandes obras literárias: são fontes históricas de primeira grandeza.

 

 

 ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS     é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro



publicado por Luso-brasileiro às 12:48
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