PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 17 de Janeiro de 2016
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - RECORDAÇÕES DE UM SOBREVIVENTE DOS GARIMPOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu amigo Wilson Pereira da Silva, aviador profissional residente em Piracicaba, é um homem cheio de histórias. Quando começa a narrar, com fala mansa e voz bem impostada, as aventuras incríveis pelas quais passou, em sua longa carreira de comandante de aeronaves e empresário, nos garimpos do Pará, vai desfiando os acontecimentos mais impressionantes despretensiosamente e quase sem emoção, como se tivessem acontecido com outras pessoas. Mas aconteceram com ele, mesmo!

Incentivado por amigos, escreveu há alguns anos uma primeira versão de seu livro “Voo noturno: memória da aviação nos garimpos do Baixo Amazonas”. O governo do Estado do Pará premiou e editou a obra em 2013. Agora, dois anos depois, vem a público a segunda edição, cuidadosamente revista e bastante ampliada, pela Scortecci Editora, de São Paulo. Essa editora, fundada e dirigida pelo também amigo e companheiro João Scortecci, tem um grande mérito. Edita e lança obras de autores que não têm condições de furar o bloqueio do pequeno grupo de grandes editoras. Em 33 anos de trabalho, João, cearense que também é poeta e intelectual, montou uma gigantesca máquina editorial que já obteve, com seus lançamentos, vários prêmios Jabuti e revelou ao público numerosos talentos de primeira grandeza no mundo das letras, os quais, sem a ajuda dele, estariam até hoje nas penumbras do anonimato. Atualmente, João é o editor que lança o maior número de livros em todo o Brasil. Saem a público, graças ao seu grupo editorial, cerca de 600 livros novos por ano – o que significa mais de dois títulos a cada dia útil! Num país em que livro é artigo considerado de luxo e não essencial, isso é um verdadeiro prodígio.

Quando jovem universitário, João estudava Economia no Mackenzie, em São Paulo, e fazia parte de um grupo de jovens poetas, idealistas e sonhadores como são todos os poetas e quase todos os jovens. Imprimiam suas poesias em mimeógrafos a álcool, grampeavam toscamente os cadernos e saíam vendendo suas produções pelos bares e botecos de Higienópolis. Com isso, mantinham acesa a chama do entusiasmo criativo e, de quebra, conseguiam alguma ajuda financeira para pagarem o curso universitário e se manterem.

Quando terminaram o curso, os colegas disseram a João: - Agora acabou o sonho, vamos cair na realidade e trabalhar para ganhar dinheiro.

João respondeu: - Vocês estão enganados, agora é que o sonho vai virar realidade.

Ele tinha razão. Fundou sua editora, especializada em ajudar sonhadores a realizar seus projetos literários. Edições pequenas, baratas, com pagamento facilitado, permitindo a novos autores vencerem a barreira do anonimato. Hoje, com os recursos modernos da edição digital sob demanda, muitas empresas fazem isso, mas no início da década de 1980 era uma novidade. João foi um precursor. E venceu.

É precisamente nessa editora tão cheia de méritos que Wilson Pereira da Silva lançou a nova edição, corrigida e ampliada, de seu livro, que deve ser lido e saboreado. Revela um aspecto pouco conhecido, quase oculto, do Brasil.

Os dramas, as paixões, as aventuras e as desventuras dos garimpeiros, as verdadeiras montanhas de ouro que eram extraídas da terra, passavam por suas mãos e rapidamente desapareciam por condutos intermediários misteriosos, até chegarem às joalherias mais sofisticadas do Primeiro Mundo, são contados pelo Comandante Wilson, que iniciou sua trajetória 30 anos atrás, pilotando um pequeno avião que transportava pessoas e víveres para os garimpos, fazendo pousos arriscados em pistas improvisadas da Floresta Amazônica. Com muita garra, passando por perigos incríveis, Wilson conseguiu montar uma pequena frota de aviões, ajudou muitos colegas aviadores, tornou-se depois empresário e conseguiu o maior prodígio de todos: saiu com vida e com relativa saúde daquela espiral inebriante de riquezas e de perigos, conservando um pequeno patrimônio suficiente para realizar o maior de seus sonhos: dar ótima formação a suas quatro filhas.

Eram enormes os ganhos, eram fabulosas as riquezas que passavam pelas mãos dos garimpeiros e aviadores que se aventuravam pelas regiões de mineração, mas duravam muito pouco. Milhares e milhares de homens e mulheres de coragem eram atraídos pela miragem aurífera da Amazônia, mas a imensa maioria por lá ficava para sempre, vitimada pela malária ou por acidentes de aviação, devorada por onças ou assassinada. Muitos saíram de lá doentes e sem recursos, carregando para o resto da vida apenas as sequelas de malárias mal curadas e a memória de um Eldorado para sempre perdido.

Pouquíssimos tiveram sabedoria e temperança de poupar e aplicar com bom senso o que conseguiam poupar, e conseguiram sair a tempo de gozar uma bem merecida aposentadoria. Entre esses raros sobreviventes dos garimpos da Amazônia está entre nós, aqui em Piracicaba, o Comandante Wilson Pereira da Silva. Vale a pena ler seu revelador e apaixonante depoimento.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 

 

 

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 19:42
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