PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - DECEPÇÕES LITERÁRIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Participei, semanas atrás, de um fórum muito interessante, composto por profissionais e/ou amadores de Letras. Foi uma troca de informações deveras útil, pois pessoas das mais variadas procedências e orientações, irmanadas pelo comum interesse por Literatura e edição de livros, puderam trocar figurinhas à vontade, num clima de respeito e colaboração gerais.

A certa altura dos debates, foi proposto aos presentes que dessem seus depoimentos sobre “um romance de subliteratura” que já tivessem lido.

Senti de início alguma dificuldade para emitir minha opinião, porque, em princípio, quando pego em mãos um livro classificável como subliteratura não perco tempo lendo. Abandono-o logo. Mas lembrei depois que, há cerca de dez anos, fui a Itu, para ser padrinho de casamento de um primo viúvo que se recasava. No hotel em que a família inteira ficou hospedada, minha irmã me passou um romance recém-publicado, escrito por uma pessoa que, unicamente pelos seus méritos artísticos e televisivos, se tinha transformado em campeão de vendas de um romance. Ao me passar, minha irmã comentou que ficara decepcionada, que melhor seria o tal artista nunca se ter aventurado a escrever. Levei o livro para o apartamento e, antes de dormir, fui até à página 50. Deixei-o enfastiado, sem vontade de prosseguir. Medíocre, cheio de lugares comuns, querendo chocar os leitores e, pelo choque, atraí-los. Poderia até passar para um iniciante imaturo nas letras, não porém para uma pessoa já idosa, com nome já merecidamente consagrado como artista. Justamente por respeitar esse nome, prefiro não o citar pessoalmente.

Há pessoas, e até verdadeiras personalidades, que nunca deveriam publicar livros. E há, também, grandes escritores que, de vez em quando, em horas menos felizes, produzem banalidades. Nem todo bom escritor mantém, sempre, o mesmo nível de suas produções. Algumas obras, melhor seria que jamais vissem a luz do dia.

Lembrei também, no fórum, minha decepção ao ler "Viagem à Inglaterra e à Escócia", do grande Júlio Verne. Esse autor fascinou minha distante adolescência, com suas geniais produções. Sou, por outro lado, igualmente fascinado pela Escócia, em especial pelas Highlands, pelos jacobitas, pelos clãs seculares, pela cultura céltica em geral, e pela escocesa em particular. Os romances históricos, ou de fundo histórico, de Walter Scott e de Robert Louis Stevenson, aclimatados na velha Escócia, nunca me canso de os reler. Quando soube da existência de um livro de Júlio Verne sobre a Escócia, encontrado recentemente e dado à luz quase 100 anos depois da morte de seu autor, quis logo lê-lo, esperando encontrar maravilhas. Foi uma decepção. Mero relato de viagem, sem maior interesse, sem conteúdo, sem descrições psicológicas de personagens, sem análise profunda de ambientes, sem nada que prestasse... pelo menos no meu juízo.

Fui ler, então, outro romance do mesmo Verne, também aclimatado na Escócia, intitulado “O raio verde”. Nova decepção...

Ressalvo que gosto é algo muito pessoal, muito subjetivo. Admito perfeitamente, portanto, que algum colega visse valores nos livros que classifiquei como subliteratura. Com maior dificuldade admitiria que considerassem subliteratura Eça, Machado ou Guimarães Rosa...

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.



publicado por Luso-brasileiro às 10:59
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links