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Domingo, 27 de Novembro de 2016
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - COMENTANDO MONTAIGNE - CONCLUSÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Concluo hoje meus comentários - que já se estão estendendo demasiado, para uma simples coluna semanal de divulgação do pensamento - sobre Michel de Montaigne (1533-1592).

Devemos notar que esse filósofo francês, depois de afirmar a impossibilidade de o ser humano atingir o conhecimento certo e geral das coisas científicas e físicas, também questiona sua capacidade de objetivamente conhecer e apreender verdades metafísicas. Aqui já entra um elemento, digamos, religioso, em sua análise. Pois se ele questiona a razão, característica específica que torna o homem diferente dos animais e feito à imagem e semelhança de Deus, acaba, por via de consequência, pondo em dúvida toda a espiritualidade e moralidade dos atos humanos.

Isso tudo chocava muito, não só às pessoas tradicionalmente apegadas ao pensamento filosófico antigo, que continuava a inspirar pregadores religiosos católicos, protestantes e judeus, mas também a muitos espíritos que haviam aderido sinceramente ao humanismo renascentista, mas continuavam fortemente influenciados pela religião. Lembre-se, a propósito, que o humanismo foi deísta, não foi agnóstico e muito menos ateu. Agnosticismo e ateísmo são fenômenos recentíssimos, na história da espécie humana.

Do questionamento da razão como suficiente para a apreensão da verdade, e sobretudo da verdade de ordem metafísica, a consequência é imediata: chega-se à conclusão de que a sabedoria não consiste em especulações teóricas, mas na prática da arte da vida, concreta e palpável, procurando cada qual, a cada passo, agir corretamente, procurando diante de cada escolha concreta que se apresente, eleger a opção que parece melhor, mas sem a pretensão de utilizar referenciais de ordem superior, inalcançáveis e demasiado elevados para nós.

Nessa perspectiva, Montaigne valoriza de novo os heróis e os exemplos do passado, assim como certos valores pregados pelos antigos estoicos, mas considerados isoladamente, um a um, e não fazendo parte de todo um arcabouço ordenado e consistente. O exemplo de um herói não é senão um exemplo de um homem, tão valioso, ou tão pouco valioso, quanto o de qualquer outro homem. Ele não chega a negar a Lei Natural, mas na prática a considera inalcançável objetivamente e, portanto, não devendo ser tomada como referencial. Uma ética enfraquecida e sem seu apoio mais sólido é, a meu ver, a de Montaigne. A própria prática da liberdade humana passa a ser um jogo individual, sem referenciais universais. Nesse ponto, em que ele parece aproximar-se do indiferentismo e do relativismo contemporâneo, é que o erudito Cardeal González viu elementos de imoralidade.

Um outro aspecto dele cabe lembrar aqui,  que o aproxima bastante do pensamento “politicamente correto” predominante em nossos dias. É um ponto de particular importância em nosso trabalho, porque toca diretamente a abordagem do artigo de Lestringant citado há algumas semanas nesta coluna. Refiro-me a sua célebre consideração crítica sobre o que hoje designamos como etnocentrismo, ou seja, a tendência que já se verificava na antiga Grécia, para designar como “bárbaros” (ou denominações depreciativas análogas) outros povos de cultura diferente.

Transcrevo textualmente as palavras de Montaigne: “Penso, voltando aos meus propósitos, que não existe nada de bárbaro nem de selvagem naquilo que me relataram, senão que cada um chama de bárbaro o que não corresponde a um costume seu; verdadeiro também parece dizer que não temos outra visão da verdade e da razão além daquela das opiniões e costumes do país em que vivemos. No nosso país a religião é perfeita, a polícia é perfeita, o uso de todas as coisas é perfeito. ...”.

Essa observação de Montaigne está inteiramente dentro do pensamento do moderno estruturalismo, por exemplo de Levi-Strauss, segundo o qual não existem culturas superiores nem inferiores, sendo todas elas paralelas e seguindo um padrão universal, estrutural na mentalidade humana. Seria desviar muito do objetivo deste trabalho fazer aqui a crítica da afirmação de que não se pode falar em culturas superiores ou inferiores. Não concordo com essa ideia – e até costumo zombar dela em minhas aulas, designando-a como “antropoliticamente correta”. No meu modo de entender, que seria muito longo expor aqui, existem culturas superiores e inferiores, sim, mas mesmo as culturas superiores sempre têm algo a aprender com as inferiores.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.



publicado por Luso-brasileiro às 19:08
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