PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - MONARQUIA VERSUS REPÚBLICA: UM DEPOIMENTO CURIOSO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                  

 

Comentei, no meu último artigo, que por mais que se oponham, no plano teórico e ideológico, Monarquia e República, e por mais que cada uma dessas formas de governo implique uma visão diferente do próprio universo, o fato é que no interior das mentes ambas convivem. Por mais que uma pessoa seja monarquista, ela sempre conserva no seu interior, ainda que subconscientemente, algumas pitadas de republicanismo; e por mais que alguém seja republicano, não pode deixar de sentir, dentro de si, algumas vagas simpatias por tudo aquilo que, no imaginário coletivo, caracteriza a velha e tradicional monarquia.

Vale lembrar, a propósito, que num estudo clássico, intitulado “O Patriarca e o Bacharel” (São Paulo: Martins Ed., 1953), Luís Martins analisou o caso de uma geração de jovens que saudaram com esperança o advento do regime de 1889 e pouco a pouco, ao longo da vida, foram se desiludindo com a república, chegando à idade madura francamente como saudosistas do velho regime imperial. Em “Ordem e Progresso” (Rio de Janeiro: José Olympio, 1957), Gilberto Freyre também alude ao mesmo fenômeno. São exemplos clássicos de “republicanos agredidos pela realidade”, nos quais acabou despertando o velho monarquista adormecido. Consta que, no fim da vida, até Júlio de Mesquita Filho, diretor do republicaníssimo jornal “O Estado de São Paulo”, não escondia seu saudosismo monárquico, a ponto de dizer que não entendia como seu pai, sendo homem inteligente, tinha podido defender a República (cfr. José Maria Mayrink, Trajetória de um jornalista liberal, “O Estado de São Paulo”, 25/11/2009).

Um exemplo característico de monarquista dormindo ou dormitando num republicano confesso pode ser encontrado em recente artigo do historiador e professor da UNICAMP Leandro Karnal, publicado precisamente no velho jornal dos Mesquita (O Real da realeza, “O Estado de São Paulo”, 4/1/2017), no qual comenta o seriado televisivo “The Crown”, que vem sendo exibido em todo o mundo e já conquistou um número imenso de aficionados.

Karnal aponta vários aspectos do seriado que o impressionaram. Por exemplo, a cena da velha rainha Mary se inclinando respeitosamente diante da sua jovem neta no momento em que esta recebia a notícia do falecimento do falecimento de seu pai. “The King never dies”... Morto Jorge VI, a realeza britânica continuava viva, sem qualquer solução de continuidade, na pessoa de sua filha Elizabeth. E o fato de a velha mãe do monarca falecido se curvar diante da neta (que naquele instante já não era apenas a neta, mas personificava uma instituição venerável, um ideal, uma nação, uma História, a recordação de um passado e ao mesmo tempo a esperança de um futuro para todo um Povo e, mais do que isso, para um conjunto de povos que constituiriam a Commonwealth)  tem inegável grandeza. A cena impressionou Karnal, que a comenta e, ao mesmo tempo mostra certa nota de melancolia:

“O trono é mais poderoso do que seus ocupantes. Mary se inclina enfaticamente e demonstra que não existe mais Elizabeth de Windsor, mas apenas a rainha Elizabeth II. Essa é parte da magia das monarquias: a liturgia do cargo antecede e se amplia sobre as pessoas. No campo simbólico, as repúblicas sempre falharam miseravelmente diante da força histórica e sagrada do trono. A célebre música de Haendel usada em coroações, Zadok the Priest, com sua grandiosidade épica, seria inconcebível numa posse em Brasília”.

Não foi essa a única cena do seriado que fez Karnal lembrar melancolicamente da capital brasileira. Afinal de contas, se a Inglaterra, aferrada ao seu passado glorioso, insiste em se manter de pé, à maneira de uma mítica ilha de sonho, também nós, no Brasil republicano temos uma “ilha da fantasia” - como se costuma designar, com claro intuito pejorativo, a Brasília republicana. Karnal se impressionou com uma cena do velho Churchill discursando e não lhe foi possível deixar de compará-lo aos “estadistas” brasileiros da atualidade. Passo de novo a palavra a ele:

“Eu falei de ligeira melancolia. Sim, porque ouvir Churchill discursando me remete aos discursos atuais sob o trópico da crise. Temos homens preparados e já houve até pessoas cultas na presidência. Mas a falência da nossa retórica é brutal. Os políticos falam mal, pronunciam de forma péssima e, quase sempre, expressam ideias pouco elaboradas. Insultam-se, matando o decoro, a inteligência e a esperança num Brasil melhor. Por que melancolia? Porque um dia os discursos estiveram inscritos nas páginas da literatura mundial; hoje, amiúde, constam em autos judiciais de acusações recíprocas de rapinagem. Moldura e tela ficaram de qualidade duvidosa”.

  As palavras com que conclui seu artigo são ainda mais expressivas da mentalidade de um intelectual inteligente que, agredido pela realidade republicana, sente dentro de si, latente, a atração pela monarquia: “Na nossa República, a mediocridade é exaltada e a ribalta política traz à tona o caráter tosco e raso dos nossos líderes. Não sou um monarquista, mas confesso que ser republicano está cada dia mais árduo... God save the Queen! Que Marianne, símbolo da República, tenha uma ou duas aulas de etiqueta e de dignidade”.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:44
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links