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Sábado, 12 de Maio de 2018
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - A SUPERMODELO DONA FEDÚNCIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No século XIX e em princípios do século XX, era frequente o recurso à poesia na propaganda comercial. Esse recurso, que o moderno marketing desprezou completamente, tinha, entretanto, grandíssima valia. Para ouvidos habituados à rima, à métrica e ao ritmo, como eram habitualmente os de nossos avós, uns versinhos bem torneados se gravavam na memória de modo assombroso. Os modernos jingles eleitorais não dão sequer ideia do que era a penetração dos versinhos antigos!

Os leitores brasileiros que tenham mais de 60 anos com certeza se lembrarão dos velhos e saudosos bondes, nos quais, indefectivelmente, a par dos anúncios das Pomadas São Sebastião e Minâncora, vinha a figura de um rapaz forte e bem apessoado, com os seguintes versinhos:

“Veja, ilustre passageiro, / O belo tipo faceiro / Que o Sr. tem ao seu lado; / E no entanto, acredite, / Quase morreu de bronquite, / Salvou-o o Rum Creosotado.”

Graças a Deus, não sofro de bronquite... Mas se algum dia tiver a infelicidade de apanhar essa doença, com toda a certeza imediatamente procurarei saber, em alguma farmácia, se ainda existe esse miraculoso "Rum Creosotado", de tal maneira me ficou ele na memória desde a primeira infância.

Lembrei-me mais uma vez do Rum Creosotado em minha última viagem a Portugal, quando tive ocasião de rever - e quantas saudades tinha disso! - o tradicional bar A GINJINHA, bem no centro lisboeta.

Fica ele na Travessa de São Domingos, n° 8, a dois passos do Rossio, em direção a quem vai à Rua das Portas de Santo Antão, ou à Igreja de São Domingos (igreja que há mais de 50 anos incendiou-se e até hoje conserva as terríveis marcas do incêndio).

Minúsculo, terá, no máximo, uns 10 ou 12 metros quadrados, e está quase sempre cheio. Nele se consome exclusivamente a ginjinha, aquele delicioso licor popular tipicamente luso, obtido por maceração das ginjas - espécie de cereja muito comum na Extremadura portuguesa - em bagaceira e açúcar.

Atribuem-se - ignoro se com razão - excepcionais qualidades reconfortantes à ginjinha. Ela é servida, habitualmente, num copo pequeno, no fundo do qual se deposita uma das frutinhas, que é comida após o último trago.

A propaganda dessa taberna é feita exclusivamente por meio de versinhos, sem falar, é claro, da difusão de boca a ouvido dos incontáveis apreciadores.

Na parede externa, figura uma imensa estampa, com o desenho de um velho saboreando aprazivelmente a bebida, e o seguinte sexteto: “É mais fácil com uma mão /Dez estrelas agarrar / Fazer o sol esfriar / Reduzir o mundo a grude / Mas ginja com tal virtude / É difícil de encontrar.”

Nas duas folhas da porta de vidro, vêm outros desenhos e mais versinhos. Do lado esquerdo, dois homens, um deles magro, feio, doentio, faz o gesto de quem recusa uma bebida; o outro, forte, vendendo saúde, está precisamente tomando a bebida. Os versos explicam as imagens:

“O Matheus é um chochinha / Mais feio que um camafeu / Magro, tísico, um fuinha / Nunca na vida bebeu / Nem um copo de ginjinha.” - “O irmão, que sabe a virtude / Desta divina ambrosia / É gordo como um almude / Bebe seis copos por dia / Por isso goza saúde.”

Na folha direita da porta, figuram duas mulheres, igualmente de aspectos bem diversos. A da esquerda é magra, feia, com ares pouco sadios, a da direita é gorda, forte, saudável, vistosa. Por baixo, os seguintes versos:

“Dona Fedúncia da Costa / Delambida e magrizela / Fez de ser tola uma aposta / Diz que ginjinha, nem vê-la / porque, coitada, não gosta.” - “E a ama de um reverendo / Que é das bandas da Barquinha / Tem um aspecto tremendo / Bebe aos litros de ginjinha / E é isto que se está vendo.”

Bons tempos aqueles em que não havia a mania dos regimes de emagrecimento, nem a ditadura da dietética!

Pobre Dona Fedúncia da Costa... que nasceu em época errada! Tão zombada no seu tempo, se tivesse nascido hoje seria, talvez, supervalorizada topmodel, figuraria em capas de revista e seria disputada pelas empresas de publicidade...

 

 

 

 

  ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:54
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