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Sexta-feira, 31 de Maio de 2019
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - A GUERRA DO PELOPONESO... E NÓS!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A guerra entre Atenas e Esparta, travada de 431 a 404 a.C., foi tema sobre o qual se debruçaram Tucídides, autor da “História da Guerra do Peloponeso”, e Xenofonte, autor de “Helênicas”.

O fato que precipitou o conflito foi uma insignificante querela entre duas poleis rivais, Córsira e Corinto, sendo a primeira apoiada por Atenas e a segunda por Esparta. Na realidade, porém, o que realmente se passou foi uma luta pela hegemonia na Hélade, entre as duas grandes cidades que se haviam transformado nos dois polos do mundo helênico.

O leitor moderno pode ter uma ideia dessa realidade se analisar a Guerra Civil espanhola (1936-1939), quando por trás do conflito entre as duas facções em luta se digladiaram as forças muito mais poderosas que, pouco depois, se enfrentariam na Segunda Guerra Mundial. A Guerra Civil espanhola foi, pois, um teste, uma avant-première travada por procuração, do que viria depois. Algo disso, analogamente, se deu com o início da Guerra do Peloponeso.

Mais para trás, se recuarmos no tempo, chegaremos às Guerras Pérsicas, nas quais Atenas, à testa da Liga de Delos, assegurou uma posição de preeminência sobre Esparta e, mais geralmente, sobre toda a Grécia. Concluídas as Guerras Pérsicas, convinha a Atenas conservar o status quo, e teve início uma fase imperialista de sua história. Já Esparta, em nome das liberdades e autonomias das poleis ameaçadas pela hegenonia ateniense, lutou durante anos, até desbancar Atenas e assumir a posição hegemônica. Numa terceira fase, chegou a vez de Tebas, a terceira cidade que, sob a chefia de Epaminondas e beneficiada pelo desgaste das duas anteriores, conseguiu assumir a posição que ambas haviam ocupado.

Por trás do conflito pela hegemonia, da luta pelo poder, parece-me também que se pode ver, ao longo dos 27 anos que durou a guerra, um enfrentamento quase dialético entre dois vetores que agiam no mundo grego, uma força centrípeta (que tendia à aglutinação, à federação entendida como a busca de uma unidade, em torno de um único centro) e outra centrífuga (que favorecia e estimulava as autonomias e as independências entre as várias poleis, respeitados sempre os usos e costumes locais). Faço notar que em diversas fases da História europeia, desde a Idade Média até o século XIX, em diversos países (por exemplo, na França, na Espanha, na Itália, no mundo germânico, até mesmo no Império Otomano) verificaram-se análogos enfrentamentos de vetores centrípetos e centrífugos.

Mais por trás, ainda, do enfrentamento entre Atenas e Esparta está, é claro, o problema de mentalidade, de cosmovisão, de weltaunschaung. Era um problema filosófico ou ideológico, proveniente de dois modos de conceber a vida. O curioso é que, pelo menos na primeira fase da Guerra do Peloponeso, Atenas, a campeã das liberdades civis, adotou a posição centralizadora e imperialista, enquanto a ditatorial Esparta se fez paladina das liberdades e autonomias. Quem conhece a história do século XX se lembrará de muitas situações parecidas...

Grosso modo, parece-me que estão expostas as causas da Guerra. Passemos às consequências dela.

A primeira foi, sem dúvida, desastrosa para a Grécia. Quase três décadas de guerras, de divisões, de morticínios, enfraqueceram o mundo grego, empobreceram-no economicamente, prejudicaram seu florescente comércio e permitiram que Roma, muito mais nova (fundada em 753 a.C.) fosse assumindo o papel de grande potência mundial.

Igualmente foi abortada, com a derrota de Atenas, a evolução política e social que se verificava na cidade. Desse ponto de vista, a vitória de Esparta sobre Atenas representou um retrocesso.

Outra consequência, entretanto, que eu consideraria mais bem vantajosa para a cultura e a civilização, foi que, como decorrência da Guerra do Peloponeso, tomou a dianteira a Macedônia, inicialmente com Filipe e em seguida com seu filho Alexandre. A grande expansão militar e política de Alexandre teve o efeito de espalhar a cultura grega por todo o mundo conhecido de então.

A cultura grega, aquilo que se poderia anacronicamente chamar de "greek way of life", que já se espalhara pelas rotas comerciais e pelas colônias da Magna Grécia, atingiu então seu ponto máximo de desenvolvimento e de influência na condução dos povos antigos. Mais tarde, viria essa cultura a se constituir numa das três matrizes da civilização ocidental. De fato, a nossa civilização, aquela em que fomos formados e que formou nossos espíritos, tem sua origem em três grandes focos: o Lácio, a Grécia e a bacia do Jordão. Roma nos legou o Direito, muitas instituições políticas e administrativas, muitas línguas etc. Através dos judeus nos chegaram a Revelação e a Fé. E da Grécia herdamos a Filosofia, o pensamento, as categorias, a literatura, o teatro e tanta coisa mais. Até nós, pois, de algum modo chegaram as consequências remotas da Guerra do Peloponeso.

 

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS   -    É licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:12
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