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Sábado, 30 de Setembro de 2017
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - AS GENEALOGIAS DO ABADE DE JAZENTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fiz referência, no artigo da última semana, a um soneto famoso, escrito pelo Abade do Jazente, satirizando as pessoas que, sem bom senso nem espírito crítico, supervalorizam linhagens fabulosas. Uma amiga que não via há muitos anos me telefonou, perguntando quem foi o Abade de Jazente e onde podia ler o soneto.

Já mandei a ela o texto do soneto e já conversamos sobre a identidade do seu autor. Mas, como outros leitores podem também ter interesse, aqui compartilho  algumas informações.

“Abade do Jazente” era o título eclesiástico que tinha o sacerdote e poeta Paulino Cabral de Vasconcelos, nascido em Amarante, no Norte de Portugal, em 1719, e falecido na mesma vila, em 1789. No Brasil, abade é o título dos superiores de alguns mosteiros religiosos beneditinos, cistercienses etc.; já em Portugal, também eram designados como abades os sacerdotes não membros de ordens religiosas, mas pertencentes ao clero secular (“clero diocesano”, na nomenclatura atual), quando assumiam o paroquiato de algumas igrejas principais que no passado gozavam de um estatuto especial e recebiam os dízimos diretamente dos fiéis, sem a intermediação da Coroa ou de outra autoridade eclesiástica. Como o Padre Paulino foi nomeado, em 1752, pároco da Igreja de Santa Maria de Jazente, que tinha então esse estatuto, tornou-se conhecido como “o Abade de Jazente”, e por esse título assinava seus versos.

Vejamos, pois, o soneto:

“Qualquer homem, como eu, tem quatro avós, / Estes quatro por força dezesseis, / Sessenta e quatro a estes contareis / Em só três gerações que expomos nós.

“Se o calculo procede, espreitai vós / Que pela proa vêm cinquenta e seis / Sobre duzentos mais, que lhe dareis, / Qual chapéu de cardeal, que espalha os nós.

“Se um homem só dá tanto cabedal / Dos ascendentes seus, que farão mil? / Uma província? Todo Portugal?

“Por esta conta, amigo, ou nobre, ou vil, / Sempre és parente do marquês de tal, / E também do porteiro Afonso Gil.”

Esse soneto, muito conhecido em Portugal, satiriza as genealogias fabulosas, inspirado numa passagem do Apóstolo São Paulo, que recomendou aos fiéis que "não se ocupassem em fábulas e genealogias intermináveis, as quais servem mais para questões do que para aquela edificação de Deus, que se funda na fé" (Primeira Epístola a Timóteo, 1, 4). A ideia que desenvolve é que, tendo todos os homens, de qualquer condição, dois pais, quatro avós, oito bisavós etc. etc., já na 8ª. geração todo mundo tem 256 costados, na 9ª., 512 e na 10ª. 1024. Ora, 10 gerações, em termos de tempo, correspondem a cerca de apenas 300 anos, o que é muito pouco. Assim, no fundo, todo mundo é parente de todo mundo e não se precisa subir a “árvore genealógica” até o Sr. Adão e sua digníssima esposa Dona Eva para se constatar isso...

A Bíblia condena, pois, as genealogias fabulosas e vãs, mas não condena as genealogias verdadeiras e não censura a legítima ufania pelos antepassados ilustres e dignos de memória. Boa parte do Gênesis e todo o Primeiro Livro dos Paralipômenos (livro que, nas edições mais recentes da Escritura, é denominado como Primeiro Livro de Crônicas) são dedicados às genealogias. E, no Eclesiástico é recomendada a ufania pelos antepassados: “Louvemos os varões ilustres, os nossos maiores, a cuja geração pertencemos. O Senhor operou neles muitas maravilhas (...) Todos eles alcançaram glória entre as gerações do seu povo, e foram louvados no seu tempo. Os que deles nasceram deixaram um nome que faz recordar os seus louvores” (44,1-10).

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por Luso-brasileiro às 18:24
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