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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - IVAN WASTH RODRIGUES E OS UNIFORMES MILITARES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ivan Wasth Rodrigues (1927-2007), artista de muito talento, formado na Escola Belas Artes de São Paulo, é frequentemente confundido com seu tio José Wasth Rodrigues (1891-1957), do qual foi discípulo e continuador. Ivan deixou obra monumental, como ilustrador de livros históricos brasileiros e autor de muitos selos impressos pelos Correios nacionais. Trabalhou também para o MEC e o IBGE. Possuía grande erudição histórica, haurida autodidaticamente, e dominava vários idiomas, também estudados e assimilados por conta própria. Pesquisava conscienciosamente fontes e informações históricas antes de fazer cada desenho, de pintar cada aquarela. Extremamente rigoroso consigo mesmo, a autenticidade documental de suas produções resiste aos críticos mais severos.

A “História do Brasil em quadrinhos”, com texto de Gustavo Barroso, lançada em 1959/1962 pela EBAL (Editora Brasil-América, do Rio de Janeiro) em dois volumes, foi inteiramente ilustrada por Ivan, com desenhos fantásticos que constituem uma coleção maravilhosa, com grande autenticidade documental e muito bom gosto. A obra mais chamativa que produziu foi a quadrinização de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, publicada pela EBAL em preto e branco em 1981, e em cores, no ano 2000, pela ABEGraph.

Cheguei a ter um contato pessoal com ele, por telefone, quando já estava no fim da vida. Autorizou-me de boa vontade a usar algumas imagens suas num livro que eu estava editando e, embora não estivesse bem do ponto de vista econômico, compreendeu que se tratava de uma edição de alto interesse cultural e sem nenhuma perspectiva de lucro, de modo que nada quis cobrar pela utilização de suas imagens.

Uma das suas obras mais valorizadas é a coleção dos uniformes militares utilizados no Brasil desde o século XVI, reproduzida em “Uniformes Militares Brasileiros”, livro-álbum lançado em 1984 pela Léo Christiano Editorial, do Rio de Janeiro, com texto de Deocleciano Azambuja e aquarelas de Ivan Wasth Rodrigues. Trata-se de uma raridade bibliográfica disputadíssima. Há muitos anos desejo adquiri-la, mas sempre que a encontrei foi a preços proibitivos fora do meu alcance. Coleções incompletas são, frequentemente, desfeitas e suas pranchas destacáveis, com as aquarelas impressas, são oferecidas avulsamente, em leilões. Também alcançam altos preços.

O uniforme é peça de grande importância para o militar, com algumas funções primordiais: 1) deve lhe servir como proteção ao corpo, contra o frio e o calor excessivos, contra a chuva, contra o sol, e, quando em situação de combate, deve também protegê-lo contra o inimigo, por meio de equipamentos defensivos (por exemplo, o capacete) e uso de artifícios de camuflagem; 2) deve ser prático, no sentido de oferecer a ele mobilidade e conforto para o exercício de suas atividades, tanto na paz quanto em combate; 3) deve servir como fator de identificação hierárquica e funcional; 4) deve também, por via de simbolismo, exprimir e significar valores morais que têm, para o militar, importância fundamental.

A enorme variedade dos uniformes, ao longo da História, em épocas e situações distintas, permite identificar os valores e as ideologias dominantes em cada tempo histórico. Vou dar um único exemplo que permite identificar como ideologias podem influenciar um uniforme. Tradicionalmente, os militares portavam no peito as medalhas e condecorações recebidas. O critério dessas distinções sempre foi qualitativo, ou seja, o militar ia subindo de grau, dentro de uma mesma ordem de valores, a cada nova ação digna de recompensa que praticasse. Podia subir de cavaleiro para oficial, para dignitário, para grã-cruz de uma ordem, podia passar de uma coroa ou medalha de bronze para outra de prata e, por fim, de ouro etc. etc.

Os exércitos comunistas, igualitários por ideologia, instituíram um critério novo de homenagens, mais quantitativo do que qualitativo. Passaram a conferir a mesma medalha ao mesmo indivíduo, no mesmo grau único, um número indefinido de vezes. Um sujeito podia, por exemplo, ser três ou quatro vezes condecorado com a mesma insígnia de “Herói da União Soviética”. E houve um que recebeu onze vezes a mesma “Ordem de Lenine”. O que valia era a quantidade, mais do que a qualidade. Por trás dessa mudança de critério - que se exprimia de modo visual e vivo, no uniforme - estava todo um universo de concepções filosóficas e criteriológicas, que marcava bem a diferença entre a civilização e a cultura anteriormente predominantes, e a “nova sociedade” socialista. igualitária e proletária que tentavam implantar.

Um estudo dessas variações, sobretudo no âmbito da Nova História Cultural (tendência historiográfica à qual prefiro tender, apesar de ter em relação a ela alguns pontos de dissonância), é algo extremamente rico e sugestivo.

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 



publicado por Luso-brasileiro às 17:54
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