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Sábado, 24 de Março de 2018
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - O "DEMÓNIO DO MEIO DIA" - TENTATIVA EXEGÉTICA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                           

A expressão “demônio do meio dia” passou da Bíblia para a literatura, sendo utilizada em sentidos muito diversos. Trata-se de uma alusão ao seguinte trecho do salmo 90, na tradução da Vulgata, o qual se refere à pessoa que vive sob a proteção de Deus: "Non timebis a timore nocturno, a sagitta volante in die, a negotio perambulante in tenebris, ab incursu et daemonio meridiano" (vers. 5-6). Em tradução literal e livre: Não terás medo do terror noturno, da flecha que voa de dia, daquilo (ser, coisa, dificuldade) que vagueia nas trevas, da investida e do demônio do meio dia.

Em tempos mais recentes, a expressão “demônio do meio dia” vem sendo rejeitada por muitos intérpretes que, ao traduzir diretamente do original hebraico, preferem falar em calamidades, flagelos, tempestades, miasmas do ar etc. que devastam ou contaminam no meio do dia, ou para os lados do sul. Não obstante, tal expressão figura na Vulgata, na versão dos Setenta e em alguns outros códices antigos (Aquila, Simaco, a Paráfrase caldaica), e foi muito glosada pelos Padres da Igreja e pelos exegetas ao longo dos séculos.

Todo o salmo 90 é de muito difícil interpretação. Repleto de matáforas - ainda mais no hebraico do que nas versões - é, segundo São Roberto Bellarmino, “tão elegante quão difícil” (non minus elegans quam difficilis). E  “muito obscuras” (valde obscura) parecem, ao mesmo Doutor, as palavras dos dois versículos em questão.

É compreensível, pois, que numerosas interpretações, desde a quase literal até as mais figuradas e especiosas, tenham sido propostas para explicar o “daemonium meridianum”.

Há os que pensam haver demônios diurnos e demônios noturnos, uns se empenhando em tentar os homens durante o dia e sob o sol mais forte, outros procurando fazer-lhes mal à noite, enquanto dormem.

Certos comentadores parecem inclinados a ver, na alusão ao demônio meridiano, posta no contexto dos dois versículos e no contexto mais amplo de todo o salmo, um recurso literário para afirmar que o demônio tenta a toda hora, e de todas as formas: à noite como de dia, oculta como abertamente. E que em todas essas circunstâncias é na proteção de Deus que se deve depositar a esperança.

Santo Agostinho entende por “daemonium meridianum” a tentação grave, porém manifesta, enquanto o “timor nocturnus”  seria a tentação leve e oculta, a “sagitta volans in die”, a tentação leve e manifesta, e o “negotium perambulans in tenebris”, a tentação grave e oculta.

São Bernardo de Claraval vê, nessa passagem, uma alusão a quatro tentações diversas. O temor noturno é a tentação de pusilanimidade, a flecha que voa de dia, a da vanglória, o que vagueia nas trevas, a da ambição ou da avareza, e o demônio do meio dia, a de fazer o mal sob as aparências de bem.

Segundo outra interpretação, atribuída a São João Crisóstomo, entendendo-se por noite o tempo da adversidade, e por dia o da prosperidade, os gravíssimos e notórios crimes ocasionados pela demasiada opulência e pelo poder constituem, segundo ele, o “daemonium meridianum”.

São Roberto Bellarmino, após fazer a recensão de outras interpretações, acrescenta a sua, dizendo que Davi chama de demônio meridiano a todo o agressor robusto e poderoso que não teme fazer mal e ferir mesmo à luz do meio dia. Sendo o demônio o príncipe de todos os iníquos e malfeitores, cabe a designação a todos eles, e principalmente aos mais audazes e robustos.

Santo Atanásio fala no demônio da acédia, que procura causar a inapetência pelos bens espirituais: Teodoreto, no da impureza, cuja influência maléfica se acentua após a comida e a bebida. Outros falam de tentações violentas de cólera. É o demônio que tentou a Nosso Senhor Jesus Cristo no deserto, diz Eusébio. E muitas outras interpretações ainda foram propostas, que não caberia mencionar aqui.

Essa multiplicidade de interpretações é, a meu ver, de grande interesse, porque permite avaliar, in concreto e na prática, como é difícil fazer, seriamente, a exegese de um texto bíblico, atendendo às especificidades do seu estilo e às características da literatura oriental e sagrada.

 

(Fontes: / SÃO ROBERTO BELLARMINO. Explanatio in Psalmo, in Supplementum ad Commentaria in Scripturam Sacram R. P. Cornelli a Lapide. Paris: Vivès, 1866, t. II, pp. 113 a 115 e 119-120. / VV. AA. Scripturae Sacrae Cursus Completus. Paris: 1839, t. XV, colunas 1173 a 1179 e 1186-1187).

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por Luso-brasileiro às 16:33
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