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Terça-feira, 28 de Julho de 2015
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - O PROBLEMA DA PROBLEMATIZAÇÃO...

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Costuma-se ensinar, em todas as nossas universidades, que "todo trabalho científico deve ser problematizado". Problematizar é formular explícita e claramente uma dúvida, um problema, uma hipótese a ser estudada. É uma formulação que até pode ser mudada, reformulada, revista, readequada em face de novas informações ou experiências, mas deve, segundo se afirma, ser explícita desde o início.

Isso parece muito lógico, pois só pode encontrar algo quem procura. Desde que o mundo é mundo existem macieiras e pessoas que se deitam à sombra delas. Desde que o mundo é mundo, portanto, incontáveis maçãs maduras caíram na cabeça de incontáveis dorminhocos... mas só Sir Isaac Newton foi capaz de extrair, desse fato tão corriqueiro, uma lei física que revolucionou a Ciência. Por quê? Porque ele tinha, no seu espírito, um problema que o atormentava, um problema que ele longamente considerou e analisou. A queda da maçã representou, na verdade, a resposta a indagações que havia muito tempo estavam germinando e borbulhando no seu espírito. A queda da fruta foi suficiente para que, como num passe de mágica, o raciocínio científico longamente trabalhado chegasse a seu bom termo.

   Assim, a quem pesquisa, é muito importante levantar perguntas. É quase mais importante levantar perguntas do que formular respostas. A problematização é, pois, fundamental para o pensador, para o estudioso.

     Mas daí não se deve deduzir, quadrada e matematicamente, que a problematização deva ser sempre explícita e sempre prévia à pesquisa. Na realidade, o pensamento humano segue caminhos lógicos, é claro, mas também caminhos analógicos. Muitas vezes, numa pesquisa, o estudioso, com seu "faro", com seu "feeling", com seu "sexto-sentido", intui que deve seguir preferencialmente determinadas pistas e deve abandonar, desde logo, outras. Ele não sabe explicar por que é assim, mas “sente” que é assim. Agindo dessa forma, ele não está agindo de modo estritamente lógico, mas também não está agindo irracionalmente. Ele está tão-só seguindo sua intuição. De um modo geral, as mulheres são, nesse particular, mais bem dotadas que os homens. Nelas, o "sexto-sentido" é mais vivo e mais atuante. Mas também os homens se beneficiam dele.

           E é aí que se chega ao ponto de que estamos tratando. Que deve haver problematização, sem dúvida deve. Mas nem sempre ela é inteiramente explícita, muitas vezes ela pode, no espírito do pesquisador, estar em germinação, até mesmo meio no campo do subconsciente. Ele sabe, com um grau maior ou menor de explicitude, que dali sairá alguma coisa útil, mas ele nem sempre é capaz de formular com toda a sua clareza.

     Também não é necessário que a problematização seja prévia. Por vezes acontece de fazermos descobertas... e só depois percebermos que elas são úteis para resolver problemas nos quais nunca pensamos. O caso mais típico foi o de Alexander Fleming, cientista que estava estudando fungos e por acaso descobriu os antibióticos. Ele não foi estudar os fungos porque queria curar infecções, ele somente se interessava por fungos. Mas fez sem querer e sem esperar uma das maiores descobertas da História da Medicina.

Não nego a importância da problematização, apenas julgo que ela não precisa ser sempre inteiramente explícita e tampouco precisa ser prévia. Parece-me excessivo dizer, como afirmam alguns teóricos, que a problematização é necessariamente o primeiro momento de todo trabalho científico.

Muitas vezes, a intuição nos conduz na pesquisa para certos caminhos que não sabemos explicitar, mas sentimos que dali poderá sair alguma solução interessante para um problema que não temos ainda formulado. Muitas vezes aconteceu comigo de me interessar por um assunto específico pelo qual sentia grande atração, e me pus a estudá-lo sistematicamente, pesquisando, lendo numerosos livros sobre o tema, fazendo fichas, resenhas etc. E só ao cabo de alguns anos me dei conta, de repente, que tudo aquilo se encaminhava, no plano subconsciente, para um problema que somente mais tarde se manifestaria, e para o qual aquela bagagem cultural acumulada trazia, consigo, os elementos para a rápida solução.

Pelo menos 3 ou 4 dos meus livros foram frutos de pesquisas desse tipo, conduzidas durante anos sem objetivos definidos, mas que, de repente, diante de certas circunstâncias, se definiram e me permitiram um aproveitamento imediato. Eu não tinha nenhuma problematização formulada, apenas um interesse muito grande e uma vaga intuição de que, no futuro, aquilo ainda me serviria.

O longo período de gestação terá sido não científico, só porque não foi explicitamente problematizado? Ou será que ele já estava problematizado no subconsciente, se bem que não tivesse ainda aflorado ao nível da consciência? Nesse caso, proceder assim seria algo irregular, algo fora do razoável do ponto de vista metodológico?

Aqui ficam estas indagações. Quem sabe algum leitor possa me ajudar a respondê-las!

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.



publicado por Luso-brasileiro às 13:54
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