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Sábado, 26 de Maio de 2018
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - UM DEPOIMENTO DO CONDE D'EU

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Armando Alexandre dos Santos.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A propaganda republicana procurou “diabolizar” a figura do Conde d´Eu, apresentando-o sistematicamente como um príncipe orgulhoso, sovina, antipático, carregando os erres de modo pouco eufônico para ouvidos brasileiros, incapaz de compreender e menos ainda de estimar nosso país e nossa gente; elevado a marechal de Exército imperial exclusivamente por se ter casado com a herdeira do Trono, seu papel como comandante supremo na última fase da Guerra contra Solano López, teria sido quase de opereta, quando não de extrema brutalidade.

As 80 cartas escritas pelo Conde d´Eu a D. Maria Amanda Lustosa Paranaguá Dória (1849-1931), Baronesa de Loreto, entre 1912 e 1921, e depositadas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, revelam a verdadeira face do missivista, que era um homem de todo em todo diverso do que geralmente se pensa dele: era carinhoso, afetivo, bondoso, sensível, religioso, profundamente amigo do Brasil e dos brasileiros, interessando-se empenhadamente pela saúde dos correspondentes, dos amigos e até dos criados das famílias com quem tinha relações. Pode-se ver, a respeito, uma coletânea comentada dessas cartas, que publiquei na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro” (v. 467, p. 219-247, 2015), disponível no site do IHGB ou no seguinte link: https://drive.google.com/file/d/0B52TfDygHoA1 dDNkdk84VlJJS2s/view

No tocante à pretensa brutalidade e selvageria que os militares brasileiros, sob o comando do Conde d´Eu, teriam manifestado no Paraguai, vale a pena transcrever aqui trechos de uma carta escrita em Boulogne-sur-Seine, em 2/1/1917, na qual a realidade dos fatos é exposta. Depois de agradecer o envio de recortes diversos da imprensa brasileira, o Conde d´Eu se refere a uma revista que a Baronesa de Loreto lhe enviara:

 “A `Revista Parlamentar´ (...) tem cousas interessantes; mas não sei como publicaram nela (a páginas 18 e 19 do n º. 29-30) um artigo firmado, ao que parece em Buenos Aires, por um Dr. Baqueiro Leal, General Médico cujo propósito é inocentar o Francisco Solano López, criticando o Imperador cujo propósito não foi, como indica esse escritor, libertar o Paraguai, mas vingar a afronta injustificável feita ao Pavilhão Brasileiro pelo aprisionamento, em plena paz, do vapor Marquês de Olinda no Porto de Assunção a 11 de novembro de 1864, e impedir, pela supressão do poderio militar de López, a repetição de tal atentado e do da invasão do território brasileiro em duas províncias, atribuindo também nesse artigo ao exército brasileiro procedimento desumano, absolutamente contrário ao que observou. Protesto sobretudo contra a alegação de que a Campanha das Cordilheiras `ofereceu a este respeito´ aspectos aterradores, `incêndios de hospitais, profanações de todo gênero´ (tendo aliás o autor o cuidado de não indicar quais foram).

“- Bem longe de não dar-se quartel a prisioneiros, eram estes recebidos com a maior humanidade e geralmente logo postos em liberdade. Tão raros eram os abusos porventura praticados por nossos soldados mesmo incultos, para com os inimigos inermes, que estando em Caraguataí em fins de agosto de 1869, mandei castigar rigorosamente um soldado que ferira a uma velha paraguaia para roubar-lhe um carneiro. Infelizmente quase já fico só eu para recordar esses fatos. - Quais as cidades que se diz terem sido destruídas? Não se pode apontar uma só nem saque, salvo talvez o que não se pôde impedir nos momentos imediatos ao cruento assalto de Peribebuí. Nem tenho ideia qual seja o lugar de `Sete Cerros´ onde se alega sem verdade terem sido degolados prisioneiros. Se o território do Paraguai ficou em grande parte talado ou inculto foi isso devido a ter o ditador López obrigado a população a abandonar seus lares para seguir seu exército em retirada e assim pereceram de fome as famílias que não conseguiram em tempo subtrair-se a essa tirania, e apresentar-se, como inúmeras vi, ao nosso exército e assim voltar a suas posses. - Se a população dessa infeliz República ficou com efeito reduzida de 800.000 almas a 14.000 de sexo masculino, a culpa não foi dos aliados e sim do Ditador que, para prolongar no seu único interesse pessoal resistência obstinada e cega, chegou a alistar pela força e levar à morte até menores de 14 anos. - Desculpe este desabafo. - Senhora D. Amanda, se achar possível dar publicidade a estas mal traçadas linhas (...), bastante lhe agradecerei; pois não posso dirigir-me a escritores que me são desconhecidos. (...). a) Gastão d´Orleans.”

O depoimento do Marechal Conde d´Eu fala por si. Não há o que comentar.

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS, é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 



publicado por Luso-brasileiro às 19:40
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