PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 27 de Junho de 2017
ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS - UM ARCEBISPO ATUANTE E REALIZADOR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como Arcebispo de São Paulo de 1908 até 1938, D. Duarte Leopoldo e Silva desenvolveu atividade intensa. No dia 29 de junho de 1913, lançou a pedra fundamental da nova Catedral Metropolitana de São Paulo. A antiga, irremediavelmente comprometida em sua estrutura, precisou ser destruída, o que determinou, como é explicável, grande tristeza na população. As obras de construção da nova Catedral, projetada em estilo gótico pelo arquiteto Maximiliano Hehl, se prolongaram pelas décadas seguintes; em 1954, ano do Quarto Centenário da Cidade, foi oficialmente inaugurada, mas ainda na década de 1970 estavam sendo concluídas as torres.

Em 1910, D. Duarte mudou o Palácio Episcopal do antigo Solar da Marquesa de Santos, situado na atual Rua Roberto Simonsen, para novas instalações, na Avenida São Luís, em terreno por ele adquirido.

Organizou o Arquivo da Cúria Metropolitana e seu Museu – no qual teve origem o magnífico Museu de Arte Sacra de São Paulo, atualmente instalado no Mosteiro da Luz, erigido ainda em tempos coloniais por Santo Antonio de Sant´Anna Galvão. Muitas peças de arte sacra preciosas, que estavam dispersas por igrejas antigas e às quais, na época, ninguém dava atenção, foram recolhidas por iniciativa de D. Duarte. Não tivesse ele tomado essa providência, por certo se teriam perdido irremediavelmente.

Do ponto de vista espiritual, fez as visitas pastorais regulamentares, empenhou-se em trazer, para São Paulo, religiosos e religiosas de várias ordens ou congregações e fundou, em 1934, o Seminário Central da Imaculada Conceição, no Ipiranga. Promoveu e realizou o Primeiro Congresso Eucarístico de São Paulo, em 1915, o Congresso da Mocidade Católica, em 1928, e o Congresso Mariano, em 1929. Em 1933, instalou em São Paulo a Liga Eleitoral Católica-LEC, sob a direção dos Drs. Estêvão de Rezende, Papaterra Limongi e Plinio Corrêa de Oliveira, conseguindo eleger este último como o deputado mais votado em todo o país, nas eleições para a Constituinte de 1933-34.

A pandemia da gripe espanhola semeou o terror, nos anos 1918-1919, em todo o mundo. Segundo o Atlas Histórico da Fundação Getúlio Vargas, cerca de metade da população mundial foi direta ou indiretamente atingida pela doença, que ceifou um número de vidas estimado entre 20 e 40 milhões de pessoas, bem mais, portanto, do que os 10 a 15 milhões vitimados pela Primeira Guerra Mundial. No Brasil, foram registrados mais de 35 mil óbitos, sendo 1/3 deles (12.700 pessoas) no Rio de Janeiro. Esses números de mortos, já de si muito elevados, exprimem apenas uma pequeníssima parcela dos atingidos pelo morbo. Houve vítimas em todas as classes sociais, desde as mais humildes até o presidente da República, Rodrigues Alves, que não pôde tomar posse em 15 de novembro de 1918 e faleceu nos primeiros dias de 1919. No Recife, que possuía 218 mil habitantes, ocorreram, só no mês de outubro de 1918, 1.250 óbitos. Em Porto Alegre, com 140 mil habitantes, os mortos foram 1.316. Em São Paulo, que então possuía uma população de menos de 500 mil habitantes, morreram 5.328 pessoas. O pânico e o terror se espalhavam por todas as partes e toda a gente que tinha recursos fugia das aglomerações urbanas e se recolhia a fazendas ou locais mais afastados, à espera de que melhorassem os ares. O Arcebispo de São Paulo foi, então, instado a se afastar da capital, para se proteger. Mas recusou. Declarou que o dever do Pastor era ficar com seu rebanho, sobretudo nas horas de perigo. E realmente não se afastou da Capital, dirigindo pessoalmente o Clero e instalando catorze hospitais de emergência, em edifícios eclesiásticos, para o atendimento aos atingidos pelo morbo.

Em 1924, durante a Revolução, o centro da cidade de São Paulo ficou algumas semanas em poder das forças rebeladas. O governo refugiou-se fora de São Paulo, nas cercanias do atual bairro da Vila Matilde e de lá organizou a retomada da capital. As áreas centrais foram intensamente bombardeadas, com grande número de mortos. O governo federal fez muita pressão para que D. Duarte saísse da cidade, para dessa forma significar sua rejeição aos revoltosos, mas D. Duarte não cedeu. Ficou em São Paulo com seu povo, e mandou abrir as igrejas para acolher pessoas que tinham que fugir de suas casas, em regiões bombardeadas da cidade. Ele não gostava nem um pouco do tenentismo e não via com bons olhos aquela revolução, como tampouco gostou da de 1930, mas mesmo assim ficou em São Paulo, pois tal lhe pareceu ser seu dever pastoral.

Em 1932, aderiu à revolução constitucionalista e abençoou as tropas de São Paulo e Mato Grosso, levantadas contra o governo provisório de Vargas que não convocava, como prometera, uma Assembleia Constituinte. A propaganda legalista apregoava, pelo Brasil inteiro, que a revolução de São Paulo tinha cunho separatista. Para negar isso, D. Duarte proferiu, pela rádio, um célebre discurso, dirigido aos Venerandos Membros do Episcopado Brasileiro, explicando com toda a clareza a posição de São Paulo e declarando seu apoio total ao movimento. Esse discurso foi gravado em disco 78 rotações, como se usava na época. Alguns trechos dessa gravação eu reproduzi durante minha conferência, para o auditório do IHGSP, na sessão do dia 15 de março último. Emocionou profundamente os presentes ouvirem, 85 anos depois, o histórico pronunciamento de D. Duarte...

 

 

 

 

ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.



publicado por Luso-brasileiro às 15:34
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