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Quarta-feira, 28 de Julho de 2021
CINTHYA NUNES - RETRATOS E CANÇÕES

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes.jpeg

 

 

 

 

            Quase ninguém mais revela as fotos que tira. Praticamente nem é mais preciso ou útil fazer isso. Câmeras fotográficas viraram equipamentos reservados a profissionais. Os amadores preferem as duplas ou triplas câmeras dos aparelhos de telefone mais modernos. Tem gente, desconfio, que sequer usa telefone para falar com alguém. Hoje em dia, sonho de consumo é ter um celular com memória suficiente para as muitas milhares de fotos que se vai acumulando.

            Houve uma época em que surgiu um porta-retratos dinâmico, no qual as fotos digitais ficavam mudando a cada grupo de segundos. Não vi em muitas casas, contudo. Acho que a moda não pegou. Nem sei direito a razão. Eu achei legal, embora na época do lançamento fosse meio caro para uma coisa que só fazia isso. Em tempos de multimídias, todos querem mais funcionalidades.

            A propósito, conforme o tempo avança é que vamos percebendo o quanto já pertencemos a uma época que se alterou, na qual os costumes mais antigos vão sendo substituídos por outros. No momento em que escrevo esse texto e nunca se sabe o quanto ele mesmo irá sobreviver, pois as crônicas são seres temporais, tudo é fugaz, as mensagens de áudio podem ser ouvidas em dupla velocidade, os textos devem ser curtos e quase ninguém tem paciência para assistir, ler ou ouvir nada por muito tempo.

            Sempre gostei de fotografar e escrevendo acabei me recordando de uma das minhas primeiras máquinas fotográficas. Era uma coisa minúscula e frágil, quase descartável. Usávamos uma espécie de cubo com 4 disparos de flash, substituíveis. O rolo de filme mais barato tinha 15 fotos e era preciso caprichar, pois não havia possibilidade de prévia análise. Somente depois de reveladas é que sabíamos exatamente o quê e como tínhamos fotografado.

            Algumas fotos saiam completamente queimadas, borradas, escuras ou excessivamente claras. Filmes de 48 poses eram pura ostentação, pois significavam 48 chances de se fazer algumas poucas fotos boas. Era emocionante abrir o envelope e conferir quais fotos iriam para o álbum e quais seriam puro descarte, dinheiro jogado fora. É dessa época as famosas fotos sem cabeça, sempre tiradas quando se tinha bebido demais ou por parentes sem muita coordenação ou vista boa.

            Havia também as máquinas de revelação instantânea, mas não tinham custo-benefício muito bom e, ao menos pelo que me consta, nunca chegaram a viralizar, como se se diz hoje. Recentemente foram relançadas, inclusive em outros formatos, algo meio vintage no entanto, sem muita repercussão comercial. Durante a vida tive outras máquinas fotográficas, inclusive uma semiprofissional, ainda guardada, pois nem dei conta de usar todas as funcionalidades, como imaginei que faria.

            Exceto, como disse acima, no que toca aos profissionais, que precisam de equipamento diferenciado e que sabem utiliza-lo, a maioria das pessoas, entre as quais me incluo, prefere as facilidades dos celulares e seu múltiplos programas de edição, gratuitos e simples. A maior parte dos celulares ainda monta, por conta própria, pequenos vídeos com as fotos armazenadas, incluindo trilha sonora.

            O problema todo, no sentir dessa cronista que já é vintage também, por assim dizer, é que as fotos não reveladas ficam habitando locais escuros e solitários em nossos celulares ou computadores, como se guardassem memórias das quais nos esquecemos ou as quais deixamos de lado para liberar espaço para outros pensamentos. Quando, num momento qualquer, acabamos encontrando-as, bate um misto de alegria e tristeza, pois não raro guardam pessoas que não temos mais como abraçar.

            Ao procurar um texto antigo, entre meus arquivos, achei quase uma centena de fotos das quais nem me lembrava. Curioso pensar como podemos ocultar de nós mesmos tantas lembranças e como elas retornam de forma instantânea quando nosso olhar encontra, em uma imagem impressa, o que nosso coração já amou demais. Como se em uma mesma vida, vivêssemos outras tantas, reveladas ou não, ocultas em gavetas ou arquivos digitais.

 

 

CINTHYA NUNES   -    é jornalista, advogada, professora universitária e tem mais de onze mil fotos em seu celular – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br



publicado por Luso-brasileiro às 21:39
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