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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019
CINTHYA NUNES - O INSEPULTO

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

            Talvez eu não seja cronista por acaso. Tenho o hábito de olhar os detalhes por todos os locais nos quais circulo. Como ando muito a pé ou então como passageira, fica mais fácil (e seguro) me deixar seduzir pela paisagem. Gosto de ver a diversidade de plantas e arranjos nas milhares de sacadas dos arranha-céus que povoam a imensidão chamada São Paulo. Para uma observadora contumaz, todo ponto é um potencial conto.

            E foi assim, olhando para tudo é que eu o vi. Fiquei um pouco chocada inicialmente, até porque imaginei que pudesse ainda estar vivo. Ele estava em meio a um canteiro de flores silvestres que se formou naturalmente na minha rua. Há alguns anos a prefeitura abriu uma faixa na calçada e plantou três pequenas árvores que morreram em poucos meses.

            No espaço vazio, abandonado pelo Poder Público, sementes de florezinhas levadas pelo vento e pelos pássaros logo se instalaram. Infelizmente, o mesmo órgão negligente, ao invés de replantar no local, periodicamente aparecia e ceifava tudo, deixando somente um espaço com terra batida. Liguei e registrei uma reclamação que foi tão ignorada quanto às falecidas árvores.

            Conto esse fato para explicar que, como passo por ali todos os dias, fico olhando as pequenas flores brancas e cor-de-rosa repletas de abelhinhas, sempre pensando quanto tempo irão durar. Em um desses dias, notei algo marrom entre o verde das folhas e o avistei, imóvel que estava. Imenso e gordo, ali estava o rato. Fiquei admirada com o seu tamanho e a sensação seguinte foi a de asco.

            Engraçado que as pessoas gostam de desenhos de ratinhos, de bonecos e histórias sobre esses animais, mas poucos tem por eles simpatia no mundo real. Imaginei que não morrera de morte violenta, pois não estava aparentemente machucado. Preocupou-me o fato de haver um animal morto, quase do tamanho de um filhote de cachorro, exposto sobre a terra.

            Cogitei retirar o corpo dali e colocar no lixo, mas faltou-me coragem, em vários sentidos. Os dias foram se passando e o corpo do animal continuou como e onde estava. Acredito que sequer tenha sido notado por mais alguém. Não sei explicar ao certo, mas aquela imagem me remeteu ao abandono. Sei que um rato transmite doenças, mas vê-lo voltar ao pó, ignorado e insepulto foi perturbador.

            Acredito que tenha sido envenenado, já que após alguns dias parecia seco, como se tivesse sido drenado. Sobre a terra, ele tinha seu corpo material devolvido às origens, insepulto, como se fosse indigno de estar coberto para ela. Lamentei por ele, pela sua condição, pela sua existência ignorada, finalizada em um canteiro de flores ocasionais, também esquecido e abandonado.

            Quiçá eu seja a estranha, mas não pude ignorar aquela situação, tão desprezada pelos humanos, os auto declarados donos e algozes do mundo, que mal se dão conta de que essa também é a sua natureza: a frágil efemeridade da vida.

 

 

 

CINTHYA NUNES   -   é jornalista, advogada e professora universitária – cinthyanvs@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 11:10
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