
A cidade de Esperança tinha cerca de 1000 habitantes. Estava na verdade mais para uma vila. Os moradores eram descendentes de antigos imigrantes europeus, embora não se soubesse exatamente de que lugar eram oriundos. Os mais velhos já eram minoria, tratando de terminar seus dias a observar as crianças a brincar e os jovens a desperdiçar seu tempo com bobagens sem importância.
Como acontece em grande parte do mundo, os idosos viviam meio esquecidos, sem ter com quem dividir suas lembranças e suas experiências. Tudo em Esperança fora construído pensando nos jovens. Como ficava no alto de um morro, havia muitas escadas pela cidade toda. Os mais velhos, inclusive, nem conseguiam chegar em todos os lugares.
Assim, de novo como acontece na maior parte do mundo, os mais jovens viviam como se usufruíssem de uma condição permanente e não excessivamente transitória. Costumavam tratar os idosos com pouco caso, com a negligência daqueles que se acostumam a não enxergar o que não é espelho.
Um dia no entanto, sem que qualquer aviso ou sinal pudesse ter sido sentido, todos os habitantes da cidade foram igualados em dores e em expectativa. Assim que despertaram, todos os moradores de Esperança, homens e mulheres eram idosos. inexplicavelmente não sobrou adulto, jovem ou criança. De uma hora para outra todos se deram conta de que o banco do tempo resolvera fazer um saque único e antecipado.
Netos se tornaram contemporâneos dos avós. Um casal recém-casado parecia comemorar bodas de ouro. Ninguém mais tinha força para executar sozinho a maior parte das tarefas diárias. Foi uma grande comoção. Estavam todos espantados e inconformados, mas muitos logo se esqueceram do que havia acontecido, pensando que não podia ser verdade que se tornaram idosos em um repente. Era mais provável que o tempo tivesse passado e eles não tivessem se dado conta.
Após especialistas do mundo todo terem emitido seus pareceres, todos inconclusivos, não restava aos “esperancenses” ou “esperançosos” outra opção a não ser prosseguir vivendo a vida que lhes restava, encurtada abruptamente ou não. Agora, sobretudo, diante de uma morte natural que se fizera uma presença anunciada, tudo mudava de perspectiva.
Casais de namorados que antes passavam o tempo admirando-se mutuamente, aprenderam que também era possível se sentirem atraídos pelos companheiros com os quais passavam horas conversando de mãos dadas, bem como que o amor parecia morar no fundo dos olhos.
Filhos entenderam como os pais se sentiam cansados e muitas vezes frustrados por aquilo que já não eram capazes de fazer e juntos, somando esforços, conseguiram caminhar de braços dados por longas distâncias. No caminho puderam trocar confidencias, rir e chorar da forma como só àqueles cujo tempo talhou as feições é dado fazer.
Curiosamente, os habitantes daquele estranho vilarejo passaram a ver “o ocorrido” como chamaram o fato de se transformarem em idosos, como algo que tinha muitos pontos positivos. Nunca houve tanto entendimento, tanta compreensão, tanta solidariedade. Havia sim, sem dúvida, um imenso pesar sobre o tempo que se perdera, pelo que não voltaria, mas se conformaram, conhecendo a resiliência.
E assim como tudo se deu, “desdeu-se”. Assim que soaram os sinos da igreja, as crianças voltaram a correr por aí, repletas de energia. Os jovens se reencontraram em seus desejos e a força era novamente capaz de mover montanhas. Tudo e nada, paradoxalmente, era como antes. Era Natal e daquele dia em diante, em Esperança, Papai Noel era somente um menino travesso, vestido de branco e vermelho e que, vez ou outra, dava estranhos presentes...
CINTHYA NUNES – jornalista, advogada e professora universitária.

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