
Embora filha de pais professores de geografia, inclusive geografia política, sou obrigada a confessar que não sou a melhor pessoa para falar sobre conflitos mundiais, guerras e grandes celeumas políticos sociais, históricos ou atuais. Pode ser a confirmação do ditado segundo o qual “em casa de ferreiro, o espeto é de pau” ou pode ser porque, de fato, não gosto e não me interesso por nada que envolva brigas imbecis, motivadas pelas razões que forem.
Sou uma pacifista. Na vida, nas minhas relações pessoais, como advogada e em todo lugar que eu for chamada a intervir. Não suporto discussões, gente que fala em voz alta para se impor, gente grosseira e brigas de modo geral. Isso não quer dizer que eu não “lute” quando seja necessário, mas que escolho muito as questões nas quais preciso me envolver nesses termos. Sou da opinião que quase tudo se pode resolver conversando, dialogando, exceto quando realmente não for possível.
Dessa forma, talvez por completa ignorância de minha parte, mas não consigo compreender, filosoficamente falando, a postura de povos que já vem brigando a centenas de anos, roubando o direito de milhares de pessoas terem uma vida normal e até mesmo de viverem. E não adiante virem me dizer que isso é motivado por questões históricas e etc e tal. Eu sei as razões declaradas, até porque, mesmo não gostando, tive que estudar sobre elas. O que não me entra na cabeça é a situação mesma em si. Parece-me tão apenas uma selvageria sem fim, uma involução humana, uma imbecilidade pura e simples.
O que mais me dói, sobretudo, é ver que muita gente que, assim como eu, não quer ter nada a ver com isso, acaba sendo vítima da truculência e da covardia de quem só pensa em brigar, matar, explodir-se e conquistar. Será que o propósito humano se resume a isso? Se for, sinto-me uma idiota, como uma marionete de um louco qualquer. A questão é que não acredito nisso, mas já não me parece que conseguiremos mudar muita coisa...
Tomo por exemplos os aviões recentemente abatidos, repletos que pessoas que seguiam vivendo suas vidas, repletas de expectativas, de sonhos, de esperanças. De repente, em um ato de suprema covardia, são levados desse mundo, sem sequer saber o que os atingiu. Quando um avião cai, por exemplo, por conta de um acidente, ainda que a dor seja a mesma, sabemos que isso se insere dentro da loteria da vida, outra coisa que igualmente não compreendo, mas que fica para outra reflexão qualquer.
Quando alguém é vitimado de forma covarde, sem chance de defesa, sem qualquer razão (se é que poderia haver razão justa), o que devemos fazer nós, os que ficam? Vi uma matéria sobre pais que perderam seus três filhos desse jeito, todos crianças, e que agora devem seguir suas vidas, sem outra opção, sem a chance de um adeus sequer. E essa dor, quem repara? Devemos começar outra guerra por isso? Para onde estamos indo?
Não consigo aquietar meu coração diante desse tipo de dor, da covardia que ceifa vidas alheias e fico me questionando em que mundo vivemos e o que devemos esperar do porvir. Nunca, ao meu sentir, ficou tão claro que, nesse momento, o homem continua sendo o lobo do homem e é esse lobo monstruoso que vem vivendo dentro de nossos armários, embaixo de nossas camas, aterrorizando e colocando fim a muitos de nossos sonhos...
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.
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