PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - JARDINS DA ALMA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                Tenho uma especial atração por jardins e pelas variadas formas nas quais eles podem se apresentar. Admiro jardins imensos, trabalhados por profissionais, repletos de flores orquestradas para compor desenhos especiais. Gosto também daqueles jardins delicados, com cara de jardim de vó, com roseiras, margaridas, trevos de quatro folhas, hortelã e outras folhinhas cheirosas que podem acabar virando chá para gripe, tempero de carnes ou de doces.

                Da mesma forma, vivo a olhar para cima, para admirar os jardins que parecem querer expulsar o concreto das pequenas sacadas dos prédios. Em alguns casos, nem mesmo dá para enxergar o que há atrás da cortina verde que se forma nesses lugares. E eu acho isso simplesmente fantástico! Já me pego a imaginar que flores há lá, que pássaros foram atraídos e toda uma multidão de pequena fauna de insetos.

                Há ainda outros jardins possíveis, como aqueles verticais, que são plantados em muros, em telhados, dentro de floreiras, dentro de terrários, bem como em qualquer lugar no qual a criatividade humana ou as forças da natureza permitirem. Particularmente, adoro qualquer um deles, sejam como forem. Gosto de admirar as formas que as flores possuem, suas cores, seus aromas, assim também como tudo que vem junto com um jardim. Plante um jardim e as borboletas virão, como se diz. E é pura verdade...

                Moro em São Paulo e, embora seja uma casa, não há um mísero pedaço de terra no qual eu pudesse ter meu próprio jardim, mas nada que muitos vasos e um pouco de boa vontade não dessem jeito. Plantei muitas flores e até uma pequena horta. Nem tudo vai para frente, nem tudo vinga, mas já comi frutos nascidos lá e agora estou a namorar pequenos tomates que se vão formando. Resolvi, a par disso, tempos atrás, comprar um alimentador para beija-flores e tive o cuidado de comprar também um preparado especial para alimentá-los. Confesso que o fiz pelo desejo de que essas pequenas e maravilhosas aves pudessem me dar o prazer de sua presença, mas não acreditava muito que eles viriam, até porque ainda não tinha visto nenhum nesses mais de sete anos que estou na capital paulista.

                Enfim, comprei, montei e, um dia, apenas um dia depois, enquanto cuidava de algumas flores, eu o vi. Magnífico. Minúsculo. Uma joia alada. Verde oliva e roxo. Fiquei sem fôlego e inerte, temerosa de que um único respirar pudesse afastar aquela fada real. Mais alguns dias e vi que não era apenas um, mas eram quatro, dois casais de espécies distintas. Tornaram-se meus fregueses, meus mágicos visitantes diários. Posso dizer que agora meu jardim está perfeito, embora nunca esteja completo, pois para isso eu preciso do mundo. E posso dizer agora que tenho um beija-flor, da melhor forma que se pode ter um pássaro ou mesmo alguém, em liberdade e por amor...

                Fico pensando nos jardins que amo e é quase inevitável fazer uma relação com a vida das pessoas. Muitas vezes passamos tempo demais a reclamar que beija-flores e borboletas não vem até nós, mas nem nos damos conta de que sequer preparamos um jardim para isso e vamos nos amargurando ao olhar os jardins alheios, repletos de vida, ressentidos de nossa “pouca sorte”. Assim também muita gente passa a vida olhando para o alheio, para a alegria do outro, sequer tendo investido tempo, paciência e trabalho para que o mesmo pudesse lhe acontecer. Tristes pessoas sem jardins em seus olhos, em seus corações e em suas almas.

                Assim como os jardins de verdade, nem sempre tudo que plantamos irá florescer, mas nada irá florescer sem que haja ao menos um lugar preparado ou disponível para isso. Algumas vezes, inclusive, plantamos alguns sonhos e colhemos outros, outros que jamais imaginamos, trazidos em semente pelo bico de algum pássaro que atraímos sem saber.

                Os jardins da alma, também devem ser, do mesmo modo que os demais, objeto de cuidado constante. Há que se preparar a terra, o coração, mas há que se podar os galhos, cuidar dos sonhos, evitar as pragas e as desilusões, e, quando forem inevitáveis, cuidar de começar a semear novamente, sementes ou sonhos.

                Não sei viver sem meus jardins, sem nenhum tipo deles. Às vezes, por descuido, eles se ressentem e me avisam que beija-flores, amigos e amores precisam ser cativados eternamente. Não dão garantias de permanência, mas podem encantar toda uma vida... Cuide bem de seu jardim. O resto vem...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:49
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