PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 19 de Julho de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - COMER,COMER...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

            Fico pensando que, no passado, comer era algo mais simples. As pessoas tinham poucas opções quando o assunto era comida e acredito que escolher entre três ou quatro opções, quando elas existiam, era muito menos complicado do que hoje, quando há, ao menos em tese, centenas de possibilidades, poucas delas saudáveis de fato.

            Ao mesmo tempo em que escrevo isso sei o quanto pode parecer superficial e fútil discutir sobre o que comer quando há no mundo tantas pessoas sofrendo e morrendo por não terem absolutamente nada para comer. Infelizmente, penso que muito tempo ainda haverá de passar até que, talvez, um dia, não haja mais diferenças sociais e que todos possam ter, minimamente, as mesmas chances.        Dessa forma, não se trata de ignorar a realidade alheia, mas apenas da constatação sobre outros fatos.

            Em geral, em grande parte do mundo, creio eu, as pessoas comem muito mais do que deveriam, mas não o fazem necessariamente melhor. No quesito qualidade da alimentação moderna, há muita coisa confusa, muitas teorias e muita gente com ideias doidas por aí. A quantidade de pessoas que vem padecendo dos males de uma alimentação ruim apenas faz aumentar e a obesidade é tão somente uma ponta desse problema.

            Quando se fala em obesidade, inclusive, inicia-se uma outra discussão que, ao meu sentir, vem beirando à loucura. É quase como se todos tivessem que ser magros para estarem dentro de um padrão de “normalidade”. Qualquer barriga pode ser vista como uma prova de que a pessoa é preguiçosa, doente ou desleixada. Mulheres bonitas sentem-se feias apenas por não serem a imagem e semelhança de esquálidas modelos ou de pessoas irreais, retocadas por programas de computado. Ser magro acabou se tornando sinônimo de ser aceito, de ser bonito.

            Daí que a neura de ser magro e mesmo o desejo de ser saudável faz com que fique um tanto complexo saber o que comer. Em um dia, o café é poderoso e, no dia seguinte, um vilão abominável. As pesquisas dessa semana refutam as da semana passada e gente saudável passa semanas à base de chás e sopas, almoçando e jantando barras energéticas, com uma estranha devoção, privando-se de uma refeição saborosa, do prazer de comer o que se gosta.

            Vejo pessoas que passam os dias calculando índices de massa corporal, às custas de potes de misturas em pó que “sabe-se-lá” o que irão provocar a médio e longo prazo. Inaugurou-se uma corrida bizarra rumo aos menores números de manequim possíveis, fazendo com que quem é gordinho sinta-se deixado para trás, excluído...

            Por isso afirmo que hoje em dia é muito mais complicado saber o que se deve comer. Acredito piamente que uma alimentação balanceada, que contemple mais alimentos naturais, menos industrializados, com menos conservantes, que contemple tudo, mas com moderação, possa ser um passo importante para a boa saúde, mas isso não implica, necessariamente, em uma barriga definida ou na ausência de algumas gordurinhas.

            Penso que nunca se teve tanta variedade de comida à disposição, mas também nunca se comeu com tanta culpa ou sendo alvo de tanta reprovação alheia. Temo, de toda forma, os excessos, os extremos. Deveríamos saber desfrutar de uma boa refeição, até porque ter o que comer é uma dádiva e porque poder comer também é sinal de saúde. E por mais que seja bom sentir-se bem com o próprio corpo, é mais importe estar bem com a alma e com o coração.

            Que todos nós tenhamos com o que nos alimentar. Que todos saibamos apreciar uma refeição saudável. Que todos estejamos em paz com aquilo que somos, apreciando a beleza de nossos corpos, ainda que eles não sejam mais músculos do que gordura, ainda que não sejam estereótipos do que é ser bonito, e sim reflexos do que é ser feliz...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 18:56
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