PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 23 de Maio de 2016
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - CENAS URBANAS

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

            Acredito que algumas das características que me remeteram à escrita de crônicas seja a curiosidade e o gosto pela observação. Embora eu seja uma pessoa falante (talvez até um pouco demais, às vezes), em geral, quando chego em um lugar no qual nunca estive ou estou cercada de pessoas que não conheço, gosto de dedicar um bom tempo a observar, quieta no meu canto. Aprendi, com o tempo, que é melhor, sobretudo, antes de falar ou fazer algo, conhecer o entorno, já que isso pode evitar vários dissabores.

            Assim, quando ando por aí, seja de carro, no banco do carona, seja de metrô ou mesmo a pé, gosto de olhar a paisagem, o comportamento da natureza e das pessoas. Morar em uma cidade como São Paulo, inclusive, é algo bem peculiar nesse sentido, eis que por aqui de tudo se vê um pouco e para uma curiosa nata como eu, essa condição é um deleite. Não raras vezes eu penso em tirar uma foto que possa registrar o que meus olhos notam e minha mente grava, mas nem sempre isso é possível. Além do fato de que eu não domino a arte de fotografar exatamente como vejo, de escolher os ângulos e os destaques corretos, nem sempre dá tempo de sacar o celular para um simples registro, quer pela efemeridade do fato, quer pela rápida passagem que se faça por determinado lugar.

            Se não me é possível, desse modo, compartilhar pela experiência visual algumas cenas urbanas que me captam a atenção, faço uso do que me é mais familiar, buscando as palavras mais adequadas, os pontos e as vírgulas que coloco em meus pensamentos. Escrever permite, por outro lado, que cada qual que possa vir a ler, imagine a cena como melhor lhe aprouver, com os recursos de seu próprio imaginário, com as cores da paleta que preferir.

            Essa semana, por acaso, foi marcada por algumas cenas que passo a descrever, por considerar serem dignas de tanto, pela peculiaridade que contem. A primeira foi quando eu voltava do trabalho, em uma segunda à noite, perto das vinte e três horas. Enquanto o carro estava parado no semáforo, eu notei algo que até então não havia visto. No cruzamento de uma avenida, no centro da cidade, há uma árvore imensa, salvo engano uma falsa seringueira. Com raízes externas e entrecruzadas, sua base parece saída de um filme de fantasia. Isso eu já havia notado, inclusive. O que até então me passara despercebido é a quantidade de ratos, gigantescos, que, correndo de uma raiz a outra, pareciam submergir e emergir delas, revirando o lixo que, infelizmente, é jogado diariamente aos pés da árvore.

            Sei que a cena acima não é exatamente bela, mas é significativa. Ali estão duas expressões da natureza, uma delas lutando para ter um espaço para espalhar suas raízes em meio a uma mínima ilha rodeada de asfalto, dando em troca sombra e abrigo a moradores de rua e, outra, representada pelos roedores que tomam conta da cidade na qual o lixo pelas vias parece ter alcançado seu lugar de (des)honra. No fim, é tudo mesmo uma luta pela sobrevivência e fica para mim a certeza de que nós, seres humanos, não estamos desempenhando nosso papel com louvor.

            Outra cena que igualmente chamou minha atenção nos últimos dias foi a de um prédio em construção, abandonado. Há muitos assim pela cidade, à propósito, por motivos diversos e eu nem faço ideia das razões pelas quais aquele em especial estava no estado em que estava, mas o que de fato é incrível é o fato de que, sobre a laje de parte dele, como um andar não terminado, havia uma árvore. Não um arbusto, mas uma árvore alta e frondosa. Isolada lá em cima, provavelmente há muitos anos já, deve ter nascido de alguma semente levada por pássaros. As raízes, na ausência de terra, devem estar fixadas entre as camadas de areia e outros materiais de construção. Ela nitidamente se apoderou daquele lugar, como uma soberana solitária, mas coroada pela grandeza de lá estar, à revelia da cidade e dos homens.

            A natureza nos mostra, diuturnamente, que ainda temos inúmeras lições a aprender. Crianças do mundo, mal-educadas e egocêntricas, seguimos ignorando seus apelos, certos de que nada haverá a ser pago. Basta, no entanto, parar alguns minutos e olhar em volta de nós, quer consigamos entender, fotografar ou escrever sobre isso...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 10:09
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar
 
links