PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 30 de Outubro de 2016
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - ENCONTROS INUSITADOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Como já escrevi outrora que, na maioria das vezes, os temas dos meus textos são retratos dos momentos que tenho vivido, situações que tenho observado ou mesmo histórias das quais ouvi falar. Poucas são as vezes nas quais inicio a semana já com o texto definido nas minhas ideias. Prefiro deixar que a inspiração mais recente se aposse de mim e tome a forma que desejar tomar. Nessa semana, por sinal, foi o que se deu...

            Como sói ocorrer com todos nós em algum momento da vida, tenho vivido algumas situações envolvendo pessoas que julgava serem de minha confiança, serem meus amigos, mas que se mostraram não merecedores do que de bom já em mim. Assim, sentimentos de traição, injustiça e tristeza acabaram ganhando espaço como inspiradores. Evito, contudo, externar em palavras todo esse turbilhão de coisas, pois sei que o tempo é o maior de todos os mestres e haverá de se encarregar de mostrar os erros e os acertos, inclusive os meus.

            Sem a vontade de tocar em temas menos pesados, vivenciei um encontro um tanto inusitado e que renovou em mim sentimentos melhores. Eis que eu estava com alguns alunos e amigos em um barzinho próximo à faculdade onde trabalho, após um dia já passadas das dez horas desde que eu saíra de casa, quando um homem, nitidamente um morador de rua aproximou-se de nós e começou a falar.

            Disse-nos que, se olhássemos para ele, provavelmente seriamos incapazes de saber que um dia, em um tempo no qual as drogas não o haviam destruído, ele foram alguém de posses e que também havia estudado, inclusive feitos duas faculdades, sendo uma de teologia. Disse que hoje estava irremediavelmente perdido, que era escravo do vício e por ele apaixonado, mas que já frequentara lugares luxuosos, já bebera vinhos caríssimos, frequentara altas rodas da sociedade. Tristemente, já dormira na rua, já bebera agua da chuva, bem como passara dias sem comer quase nada.

            Olhava para o grupo, a maioria jovens,  e dizia a eles que jamais caíssem na tentação de experimentar alguma droga que fosse, pois o futuro que lhes seria reservado teria a mesma face dele. Magro, sujo, mas falando de forma correta, ele dizia que se alguém quisesse fazer com ele uma reportagem, uma entrevista, ele teria disposição para contar a vida que teve e que perdeu.

            Pediu-nos algo para comer, mas que não lhe déssemos dinheiro, pois ele o transformaria facilmente em pedras de crack. Comeu e bebeu ali mesmo o salgado e o refrigerante que lhe demos.  Agradeceu a tudo com um sorriso no rosto e disse-nos que esperava que o exemplo dele pudesse servir para alguma coisa, bem como que éramos o primeiro grupo que lhe dava atenção. Antes de ir embora, dizendo àquele de nós que o ajudou com o lanche, que, se um dia precisasse de algo, nada lhe faltasse. Intimamente, senti uma fagulha sutil se acender na escuridão que começava a se apossar do meu coração.

            Estranhamente, esqueci de perguntar qual o nome dele e o que ele fazia antes de estar ali, naquele resto do que aparentemente fora. Pena. Talvez pudéssemos fazer algo, talvez não. Ele, no entanto, mendigo, drogado, maltrapilho, fez por mim, pela minha fé nas pessoas. Fica, para mim, a lição de a ajuda pode vir de onde menos esperamos e que até o mais humilde de nós é capaz de nos ensinar alguma coisa...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com

 

 



publicado por Luso-brasileiro às 18:53
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