PAZ - Blogue luso-brasileiro
Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - ASAS DA PAZ

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Devo registrar, antes de mais nada, que por muitas vezes acredito que penso em coisas nas quais a maior parte das pessoas não pensa, ou, na melhor das hipóteses, nas quais só pense quem, assim como eu, tem a preocupação com os animais e com o destino que é dado a cada um de nós, gente ou bicho, nesse mundo.

            Sei que a maior parte das pessoas se incomoda e talvez com razões justas, com as pombas que vivem nos grandes centros urbanos, seja pela sujeira que fazem, seja pelas doenças que podem transmitir ou ainda pelo fato de que invadem telhados e qualquer brecha nas construções humanas para lá fazerem seus ninhos. Não estou aqui criticando quem não gosta das pombas ou quem as quer fora das cidades, só acho que o mundo é um lugar difícil para elas e eu, se fosse uma pomba, ia me arriscar a viver bem longe dos seres humanos.

            Então, ainda que pareça estranho, eu sempre tive pena das pombas. Quando eu era criança já empreendia uma "cruzada" pela salvação de algumas delas. Na casa dos meus avós paternos havia um grande forno a lenha, destinado a assar os pães que meus avós vendiam na pequena padaria que era anexa à casa. Ocorre que, do lado de fora, no quintal, uma parte do topo do forno era acessível para as pombas que, diante de um lugar protegido e quentinho, lá faziam seus pequenos ninhos.

            Quando descobri que lá encima poderia haver ovos e filhotes, fiquei enlouquecida e logo arrumei um meio de subir a uma altura que me permitisse enxerga-los. Na verdade, mais do disso, pois tratei de segurar os ovinhos, observá-los e devolvê-los com cuidado aos ninhos sempre que os pais não estavam por perto. Eu seguia observando até que os filhotes nascessem e gostava de segura-los aninhados em minhas mãos. É claro que eu fazia isso sem a anuência ou conhecimento dos meus pais, mas era dos meus avós que eu mais fazia questão de esconder essas minhas atividades, eis que eles não queriam uma infestação de pombos por lá.

            O fato é que não havia qualquer contato das pombas com o forno ou com o que quer fosse produzido na padaria. As aves apenas se aproveitam do calor que emanava de uma parte da construção que ficava sobre o forno. As pombas também se aproveitavam da existência de galinhas no quintal e quando a comida era atirada para as penosas, lá se lançavam em busca de um quinhão.

            Muitos anos depois e eu continuo me apiedando das coitadas. Sempre que vejo uma delas machucada, perambulando pelas calcadas e ruas sem poder voar, percebo que não há viva alma que a elas dê guarida ou refúgio. Normalmente morrem abandonadas à própria sorte e sequer seus corpos são retirados com urgência e dignidade, ficando muitas quase como um decalque sobre o asfalto e o concreto.

            O máximo que algumas pessoas fazem é alimenta-las, oferencendo-lhes os restos de refeições ou pedaços de pão, mas até isso atrai o ódio de muita gente que não as deseja por perto. Dessa forma, infelizmente, não é raro que sejam envenenadas, que sejam alvo da crueldade de gente que sequer é capaz de ver nelas seres vivos.

            Fico pensando que, curiosamente, o símbolo da paz seja uma pomba, junto ela, tão relegada, mal-falada e pouco amada. Em tempos de guerras, de todo tipo de guerras, talvez isso nem seja assim tão paradoxal, tão incoerente, sei lá. Só acredito que elas são injustiçadas, porque a sujeira que fazem, nem de longe chega perto da sujeira que nós produzimos e se as pessoas, pelo mínimo, lavassem as mãos antes de tocar nos alimentos, por exemplo, já tiraria das pombas uma dose de culpa que vem carregando nas asas.

            Certa vez li uma matéria sobre uma moça que, muito melhor pessoa do que eu, olhou para uma dessas aves que, machucada, jazia esquecida pelo chão e, de forma piedosa, dela tratou e cuidou, tudo com aval de um veterinário que, em muito, desmistificou alguns fatos. O animal não apenas se recuperou como virou um pet e, solto para ir e voltar, sempre retornava para o lar que a ele se abriu.

            Talvez esse texto cause estranheza a alguns leitores, mas eu confesso, sem pudores, que, se pudesse, teria comigo não só as pombas, mas outros tantos animais desprezados e incompreendidos por aquele se julga a melhor e mais perfeita espécie da Criação. Estranho que sejamos todos dotados da capacidade de amar, todos desejosos de sermos amados, compreendidos e perdoados, mas pouco exercitamos disso para o próximo, pombo ou gente.

            Se eu fosse uma pomba, reivindicaria juridicamente que o sinal da paz dos homens fosse alterado, até por se tratar de pura apropriação indevida e imerecida...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 17:50
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