PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 30 de Setembro de 2017
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - DOCUMENTO EM BRANCO Nº9
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O cursor do computador está piscando na página em branco, como se estivesse me provocando, desafiando-me a digitar alguma coisa. Olho para a tela, imóvel, sem que qualquer ideia me venha à mente. Já passa da uma da manhã e eu ainda vou precisar acordar bem cedo para corrigir provas que vão se amontoando em uma quase torre de Pisa sobre minha escrivaninha.

Sinto meus olhos arderem e fico tentada a sucumbir e deixar que Morfeu me leve para suas distantes terras, mas preciso ao menos escrever alguma coisa, algo que eu possa dar seguimento amanhã, já com meu prazo agonizante.

 Pisco os olhos com força e tenho a impressão de que, no silêncio do meu quarto, devo ter cochilado em uma fração de segundos, numa rápida incursão pelo mundo dos sonhos, eis que tive a impressão de estar em outro lugar, fazendo uma outra coisa qualquer. Nunca a expressão em um piscar de olhos me pareceu tão significativa. 

 Seja como for, ainda não faço ideia do que posso escrever. A casa e seus moradores, gente  e bicho, à exceção de mim, dormem um sono manso e protegido. As madrugadas são mesmo sempre minhas desde criança. Delas sou amante fiel e ardorosa, mas até a sedução pode se cansar em algum momento.

Respiro o mais profundo que sou capaz, no desejo de que uma overdose de oxigênio possa me acordar. Contudo, mesmo no silêncio, a musa não vem me visitar e tampouco me recordo de algum fato marcante na semana que passou, de algo que me pudesse iluminar as ideias. Na verdade a semana passou tão rápido que me ficou a sensação de uma espécie de atropelamento, de engavetamento, com segundas que se parecem sextas e vice-versa.

Já quase sem desespero, olho para cima e, onde eu deveria ter escrito um título, consta “em branco n. 9”. Faço a remota ideia de que devo ter começado e não nomeado outros oito anteriores textos, numa espécie de aborto literário, com ideias e palavras que jamais chegaram a deixar meus rascunhos.

Curioso como há vezes nas quais a criatividade e a inspiração se rebelam e me deixam a ver navios. Teimosa, fico enchendo as linhas com minhas outras palavras, aquelas de reserva, de revolta, que deixo guardadas em minha caixa de Pandora. Verborrágica como sou, odeio me sentir assim, abandonada e sem ideias, desafiada pelo branco que insiste em ocupar espaço negativo. Recuso-me, no entanto, a sucumbir. Irei até o fim, lutando bravamente pela palavra minha de cada dia.

Resta-me, agora, a esperança de que, em uma linha qualquer da vida, eu me reencontre, em muito breve, com aquelas que tanto me são caras, que me escravizam a alma, dominando meu coração. Que as palavras nunca me faltem, pois sem elas nada sou...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada na Silva Nunes Advogados Associados, professora universitária, membro da Academia Linense de Letras e cronista.       São Paulo.  -  cinthyanvs@gmail.com



publicado por Luso-brasileiro às 18:19
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