PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 30 de Março de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - A VIDA DO OUTRO

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

                Creio que a curiosidade seja algo inerente aos seres humanos. Provavelmente, inclusive, tenha sido a curiosidade o sentimento que impulsionou os primeiros homens e mulheres a descobrir o que havia para além das cavernas e a explorar o mundo. Assim, certa dose de curiosidade é imprescindível. Sem ela os bebês não se aventurariam a andar, não haveria navios, aviões e tampouco saberíamos o pouco que sabemos sobre as estrelas, sobre a vida.

                Naturalmente, também sou uma pessoa curiosa. Gosto de aprender tudo o que puder, bem como conhecer aquilo que está ao meu alcance. Interessa-me o mundo. Interessam-me as pessoas pelo que elas produzem, pelo que me fazem rir ou chorar. Não me interessa, contudo, a contemplação da vida alheia. Dar conta de viver a minha é muito mais do que sou capaz de fazer. Assim, cuidar da vida dos outros não é esporte que eu pratique ou aprecie.

                Fico pensando que se as pessoas tivessem menos interesse pela vida alheia e cuidassem mais da própria, por certo seriam mais felizes ou menos infelizes (que são situações diferentes). Ficar mirando para o quintal do vizinho apenas tem o condão de fazer com que se esqueça de semear o próprio quintal e não há como colher o que não se plantou.

                Ainda dentro dessa linha de raciocínio eu me volto a outras questões. Antes de tratar sobre elas, é preciso registrar que não me considero uma pessoa despida de pré-conceitos, mas tão somente que analiso cada um deles antes de decidir se irão se tornar conceitos norteadores de minha futura ou não. Pouco me importa, portanto, se o outro é branco, negro, amarelo, ou se é casado, solteiro, hétero, gay ou o que quer que o possa rotular. Interessa-me como essa pessoa age e naquilo que me diz respeito, direta ou indiretamente. No mais, não creio que me diga respeito.

                Anda cansada das pessoas que destinam seus dias e todas as suas horas a vigiar, comentar e julgar a vida alheia. Gente que se preocupa com o que o outro faz dentro da cada dele, com a vida dele, na cama dele e com o dinheiro dele. Isso tudo sem que tais atitudes sequer constituam qualquer fato ilícito ou mesmo de interesse geral. Gente assim age como se fossem fiscais do alheio, responsáveis pela manutenção de alguma espécie de ordem universal.

                Pouco me importa, na verdade, o que meus amigos fazem das próprias vidas. Se são meus amigos, essa única condição me basta. Claro que se precisarem de mim eu estarei por perto. Se precisarem e pedirem minha opinião, posso encontrar alguma que lhes possa ser útil (e não útil apenas a mim), mas nada além disso.

                Não preciso que a Constituição Federal estabeleça que as pessoas são iguais, pois eu sinto essa igualdade dentro de mim e ela não prescinde de normas sociais, postas e escritas. A vida do outro é tão importante quanto a minha e aquilo que eu não gostaria de ouvir, a forma pela qual eu não gostaria de ser tratada, é que orienta meus passos, meu agir. Mesmo que eu erre muitas vezes, não terá sido por achar que tenho alguma importância a mais do que qualquer outra pessoa.

                Acredito que a vida do outro, exatamente por não ser a minha, por não me pertencer, merece de mim o mesmo respeito que desejo, nada significando a religião que professam, o time para que torcem, o partido no qual votaram, quem amam, a cor de suas peles e sobretudo, o que fazem entre quatro paredes. Desde que não estejam a fazer o mal, deliberadamente, estão, estamos, todos na mesma busca.

                Para além de não desejar uma vida na qual eu seja mera espectadora do alheio, vivo a desejar que um dia o mundo possa se tornar um lugar no qual a vida do outro, gente ou bicho, tenha valor apenas por ser vida, nada mais sendo preciso do que isso...

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:05
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