PAZ - Blogue luso-brasileiro
Sábado, 22 de Setembro de 2018
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - O ENCONTRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cada um é dado acreditar ou não. Não raras vezes eu perco minha fé também. E é preciso dizer que eu não deveria. Muito verdade que nem um quinto dos meus planos de futuro, dos meus sonhos de menina se concretizaram. Aprendi foi a sonhar diferente, a viver de acordo com o que a vida me apresentou.

Por outro lado, não posso me queixar. Em um país em que muitos vivem abaixo da linha da miséria e que outros tantos ficam se equilibrando nela, vivo sem grandes limitações, trabalhando, com saúde e ao lado de uma família que amo e que me ama. Ainda assim, humana que sou, tenho meus momentos de desilusão, nos quais a minha fé se abala.

Dia desses, estava eu muito chateada com alguns acontecimentos, questionando-me sobre qual seria o meu propósito nesse mundo. Caiu-me um manto de tristeza e foi como se eu me sentisse abandonada pelos meus melhores sentimentos. Implorei a Deus que me mostrasse o que eu deveria fazer, o que estava ao meu alcance para mudar as coisas. A despeito disso,  dessa sensação de desamparo, dirigi-me ao trabalho, para mais dois longos períodos.

Quando esperava para pegar o terceiro metrô na sequência, um senhor, aparentando estar próximo dos setenta anos, perguntou-me se aquele vagão iria para determinado local, ao que eu lhe respondi que sim. Contou-me que havia sido investigador de polícia, que se formara em história, geografia e Direito. Relatou-me ainda que andava meio confuso, que não se lembrava muito das coisas, que vivia se esquecendo de lugares nos quais sempre estivera.

            Fiquei compadecida dele, de sua aparência frágil e nele vi o reflexo de muitos de meus receios. Íamos para o mesmo local, para uma outra estação na qual pegaríamos um trem urbano. Seguimos conversando um bom papo e como ele era repleto de histórias, eu mais ouvia do que falava. Curiosamente, até mesmo no trem tínhamos uma grande parte do percurso em comum.

            Fiz questão de acompanha-lo pelo máximo de tempo que pude, pois me preocupava que ele se perdesse, sobretudo por estar, como ele me dizia, estranhando o fato de que, muitas vezes, ele não sabia direito onde estava ou mesmo para onde ir. Em cerca de 40 minutos eu já parecia conhece-lo há séculos.

            Muito educado, ele somente me chamava de doutora, já que em algum momento eu lhe contara que era advogada. Contou-me histórias engraçadas, casos de seu tempo na polícia e um pouco sobre a família. Peguei-me pensando como às vezes um simples bom papo, ainda que com um estranho, tem o poder de nos fazer refletir e até mesmo relevar fatos menos importantes.

            Quando chegou ao meu destino, despedi-me dele alertando para que se cuidasse e perguntasse às pessoas caso se sentisse perdido novamente. Antes, contudo, perguntei-lhe o nome e ele me respondeu que se se chamava Divino. Antes de se despedir de mim ele me disse que acreditava muito em Deus e que Ele por certo iria me prover de tudo aquilo que eu desejava.

            Não sei dizer ao certo a razão, mas o fato é que tudo aquilo me deixou extremamente emotiva. Andei por mais dois quarteirões com lágrimas nos olhos e o coração repleto de bons sentimentos, afinal de contas, não é todos os dias que o Divino surge diante de nossos olhos...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada,professora universitária, membro da Academia Linense de Letras e escritora.  São Paulo

 



publicado por Luso-brasileiro às 15:34
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