
Antes que os mais afoitos pensem que se trata de algum texto sobre futebol, eu já adianto que essa não é a minha praia, embora esse seja o meu time. Meu avô paterno torcia para o Corinthians, meu pai e tios também e eu acabei assimilando a coisa toda, mas quando se trata de futebol, eu de fato mais brinco sobre o assunto do que entendo ou discuto. Essa é uma história sobre um gato chamado Corinthiano.
Nascido nas redondezas da casa dos meus pais, em Lins-SP, ninguém sabe ao certo de onde ele veio. Acreditamos que tenha vindo de uma casa vazia do quarteirão, filhote de uma gata que não tinha dono ou cujo dono a abandonara, como infelizmente sói acontecer com muitos animais.
Até onde tenho notícia, mãe e irmãos morreram, ela doente e eles atropelados. Sobrou um dos filhotes, frajolinha, preto e branco, macho. Foi ficando por ali, andando meio desconfiado e logo ganhou a atenção e o carinho do meu meu pai que, como eu, não resiste a um olhar pidão vindo desses pequenos felinos. Apelidado de Corinthiano, virou uma espécie de gato comunitário, sendo cuidado por alguns vizinhos, mas sobretudo pelo meu pai, Luiz.
Rapidamente nasceu entre eles uma relação de amizade e como ocorre quando há afeto e compaixão envolvidos, meu pai entendia o bichano, que aparecia rigorosamente todos os dias, em horários fixos, para receber a ração que meu pai colocava no portão. Ele tinha seus potinhos e uma caminha especialmente colocada em outra casa da vizinhança, essa doada por mim, onde ele gostava de dormir nos dias frios.
O Corinthiano era conhecido de toda família, sobretudo das crianças, meus sobrinhos que, sempre que o viam no portão entoavam, em quase coro: “Vô, o Corinthiano tá no portão”. Era uma rotina de casa e até quando meus pais viajavam deixavam alguém incumbido de tratar não só da gatinha deles, mas também do Corinthiano.
Só meu pai podia fazer algum carinho nele, bem como apenas ao meu pai ele atendia quando era chamado. Para mim ele sempre olhou de escanteio, desconfiado, mas aceitava a ração que era colocada. Eu nunca deixei de lamentar o fato de ele não estar seguro dentro de algum quintal.
Como as pessoas que tem gatos sabem, esses animais são territorialistas e a Gata que meus pais acolheram das ruas há quase 15 anos simplesmente não aceitava que o Corinthiano entrasse nos domínios dela. Eram como água e óleo, mas eu confesso que tinha a esperança de que um dia fosse possível, com um pouco de paciência, que eles se dessem bem e que pudessem viver juntos, pois eu não acredito que lugar de animal seja nas ruas.
Por infelicidade e para tristeza do meu pai, meus temores se confirmaram. Sempre que eu via o gatinho atravessando a rua, imaginava o risco que ele corria, até porque as pessoas por ali passam como se fosse uma pista de corrida. E foi exatamente sob as rodas de algum carro que o pobre animal perdeu a vida.
Meus pais não viram quem o atropelou, mas é certo que ninguém se deu ao trabalho de parar para socorrê-lo, eis que é improvável que não tenham sentido o impacto. Sua curta vida começou e terminou naquela rua, naquele quarteirão. Teve sorte de encontrar um amigo, um homem que, sensível às pequenas criaturas desse mundo, eu tenho o privilégio de chamar de pai.
Para muita gente ele era só um gato de rua, um ser indesejado que melhor faria se estivesse longe dali. Infelizmente nem todos respeitam e dão valor à vida, a todas as formas de vida. Assim que eu soube da notícia senti como se tivesse perdido eu também um amigo, um conhecido. Foi inevitável chorar. Sei que não há nada mais, agora, que eu possa fazer por ele, à exceção de tornar pública sua pequena história, sua breve passagem por esse mundo. Ele podia ser um gato de rua, mas deixou sua marca em alguns corações, bem como um amigo que, por todos os dias de sua vida irá olhar para o portão na esperança de avistar um gatinho preto e branco se aproximando.
CINTHYA NUNES – jornalista, advogada e professora universitária.
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