PAZ - Blogue luso-brasileiro
Quinta-feira, 26 de Junho de 2014
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - POR AÍ

 

 

 

 

 

 

 

Aproveitei minhas curtas férias de meio de ano para fazer  algumas visitas as pessoas que me são caras. Comecei pela casa de minha irmã caçula, segui para casa dos meus pais, da minha sogra e, por fim, passei um dia na casa de minha outra irmã. Revi cunhados,sobrinhas e sobrinho, primas, tios, amigos queridos e lugares nos quais um pedaço de meu coração persiste em habitar, mesmo na distância.

            Na ida fomos de carro, desfrutando das comodidades que tal meio permite. Na volta, contudo, tive que retornar mais cedo e, por isso, voltei sozinha, de ônibus. Há muito tempo eu não me valia desse transporte, embora já o tenha feito muito, no passado, em meus tempos de faculdade. Agora, como era um trecho curto, não me crie óbices e encarei numa boa. O ônibus era bom, o motorista dirigiu os quase 200quilômetros dentro da velocidade permitida e, não fosse um pequeno detalhe, teria sido uma viagem bem agradável.

            Infelizmente, o detalhe ao qual me refiro era o povo que comigo seguiu viagem. Para ser honesta, algumas pessoas, na verdade. Infelizmente, a falta de educação, de bons modos, parece imperar ultimamente e conviver em espaços públicos ou coletivos tem sido um exercício de tolerância e até de distanciamento. Ao menos para mim.

            Quando me refiro a boas maneiras eu não estou fazendo menção a fino trato, até porque eu sequer sei direito a maior parte da etiqueta à mesa, por exemplo. Já fico em pânico quando vejo que há mais garfos, colheres e facas do que minhas mãos e, tendo recebido uma criação simples, não posso me arvorar de muita coisa nesse campo. O que menciono são as regras simples de convívio, as boas maneiras que se espera de qualquer um que não tenha sido criado por lobos.

            Assim que entrei no ônibus, após despachar minha mala, a qual superestimei e estava prestes a explodir, cheia de lembranças físicas, quase na mesma quantidade da saudade que eu vinha trazendo no meu coração, senti um cheiro ruim, que de início pensei ser aquele tipo de salgadinho de bacon, mas que logo depois, para meu desprazer,descobri ser coisa bem pior! Assim, de tempos em tempos, alguém, sem qualquer pudor aparente, empesteava o ônibus com gazes fétidos, os quais todos nós, aprisionados pelo ar-condicionado, estávamos obrigados a compartilhar.

            Lá pelas tantas, quando o ar ficou mais agradável, eu consegui cochilar um pouco, mas logo acordei com um rapaz falando ao telefone como se estivesse fazendo um discurso a céu aberto. Fui obrigada a ouvir toda a negociação de um carro que ele vinha fazendo e, no fim, quase perguntei:  - E aí, vendeu ou não?

            Quando estávamos já próximos de São Paulo, um senhor começou a tossir como se o pulmão estivesse prestes a ser expulso do corpo. É certo que ninguém tem culpa de um acesso de tosse, mas ir até o banheiro e assoar o nariz teria, por certo, feito toda diferença. Acerta altura, os sons do que ia e vinha das entranhas já estava me deixando embrulhada.

            Quando a viagem acabou, foi com alívio que me catapultei para fora do ônibus, louca de vontade de poder respirar ar puro, mas minhas narinas foram logo invadidas pelo odor pútrido do Rio Tietê, um gigante que agoniza a céu aberto. Fui tomada por uma tristeza sem fim,por uma saudade de um rio que não vi e pela família que eu tinha deixado pra trás...

 

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA -  Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora   -  São Paulo.


 



publicado por Luso-brasileiro às 11:23
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