PAZ - Blogue luso-brasileiro
Terça-feira, 28 de Julho de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - POR AÍ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            Há dias nos quais antes de mesmo de pensar sobre o que irei escrever, já tenho algum assunto desenvolvido em pensamentos. Outros dias há, no entanto, nos quais nada de especial me ocorre. No passado, tive alguns “brancos” que me apavoraram, eis que eu via o prazo para entrega do artigo se esvaindo sem que eu tivesse uma só ideia digna de ocupar o espaço em branco do monitor a minha frente.

            Assim, em parte por conta disso e em parte porque sou uma curiosa por definição, vivo sempre procurando por imagens, cenas e detalhes que passam despercebidos pelas pessoas. Geralmente, neles encontro inspiração para uma nova crônica. Entendo que, para quem me observe a distância, posso parecer um tanto estranha, olhando para cima, para o alto dos postes, janelas, árvores e mesmo para o chão, para os rastros que as pessoas vão deixando por aí.

            Nessas minhas “observâncias” já vi de um tudo. Vi pessoas que, nuas, passavam livremente pelas janelas de suas casas e apartamentos, certas de que não seriam vistas ou na esperança de o serem. Vi pássaros dos mais variados e até pequenos mamíferos, os quais eu sequer imaginava existir em plena selva de pedras. Examinando o chão encontrei joias perdidas, bilhetes de amor esquecidos ou descartados, carteirinhas de faculdade e até mesmo dinheiro.

            As sacadas dos prédios e janelas de casas podem ser uma deliciosa fonte de observação. Há algumas tão floridas, tão repletas de plantas que eu fantasio serem a entrada para alguma outra dimensão, para algum lugar no qual o verde prevaleça sobre o cinza. Em uma delas, para minha surpresa, vi um mamoeiro carregado, opulento e orgulhoso de si. Em várias janelas notei cães e gatos que se pareciam ora como guardiões da rua, ora como admiradores de um mundo que não lhes era franqueado.

            Dia desses, enquanto aguardava meus cachorros fazerem suas necessidades durante uma caminhada pelas ruas, eu me preparava para recolher o que quer que resultasse deles e comecei a observar a árvore que estava a minha frente. Notei que uma outra planta, um trepadeira, subia nela, enroscada como um amante possessivo. Logo notei que se tratava de um pé de maracujá, fruta que aprecio demais. Segui, desse modo, o percurso da rama e suas gavinhas e vi, maravilhada, que, lá no alto, bem no alto mesmo, imensos e amarelos maracujás enfeitavam a árvore, tal qual uma árvore de natal temporã.

            Não sei se o maracujá foi plantado ou se lá nasceu de alguma semente descartada displicentemente, mas o fato é que ele, majestoso, salvaguardou, nas alturas, seus frutos que antevejo doces e cheios de polpa. Lá de cima, inalcançáveis, cairão quando assim o desejarem, talvez quando já não estejam tão bons para o consumo, caso sobrevivam à queda.

            Acredito que ninguém os tenha notado ou quiçá cobiçado. Se o fizeram, pela altura, desistiram de se apossarem deles. Gosto de achar que são meus, dos meus olhos, já que os descobri. Gosto de admira-los sempre que passo por lá e fico pensando se algum dia vou presenciar o jogar-se de algum deles. Já não cobiço o fruto, mas as sementes. Quero, eu também, o meu próprio pé de maracujá das alturas.

            Divido, aqui, a experiência de tê-lo encontrado, mas não o seu esconderijo, sua morada, pois como disse, esse é o “meu” pé de maracujá. Convido, ao invés disso, cada leitor a fazer a sua própria busca... A vida é muito curta para olharmos apenas para uma direção, pois os mistérios, as surpresas, estão sempre onde menos se espera, escondidos somente de quem não tem olhos de ver...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.



publicado por Luso-brasileiro às 11:31
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