PAZ - Blogue luso-brasileiro
Segunda-feira, 27 de Abril de 2015
CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - UM DIA DEPOIS DO OUTRO

 

 

 

 

 

 

 

Cinthya Nunes Vieira da Silva.jpg

 

 

 

 

 

 

            Como professora universitária, estou sempre em contato com jovens recém saídos do ensino médio e com aqueles que se preparam para deixar os bancos universitários, rumo ao mercado de trabalho. Todos os anos, uma turma entra e outra se despede. Todos os anos, vejo rapazes e moças, mas sobretudo as moças, sofrendo de ansiedade, desesperados com o porvir. Nesses momentos é inevitável que eu me lembre da jovem que também fui, sofrendo do mesmo mal...

            Agora, a distância no tempo, parece tudo muito mais simples, mais fácil de ser entendido, mais passível de ser aguardado, mas quando somos pouco mais do que crianças, crescidos por fora e um tanto pequeninos por dentro, parece-nos que se não pensarmos a respeito, tudo saíra do controle, do planejado e, assim, o desespero toma conta de nós, dos nossos sonhos, do nosso sono, da nossa paz de espírito.

            Empenho-me na tentativa, quase vã, de convencer meus alunos de que, no fim das contas, tudo se ajeita, de um jeito ou de outro. Digo-lhes que, apesar dos nossos planos quase sempre mudarem à revelia da nossa vontade, os ventos do destino costumam direcionar nossos navios para lugares nos quais nossos corações acham morada. Entretanto, eu estou certa de que, em que pese minha intenção, não se aprende determinadas lições pela experiência alheia. A vida, por si só, é uma experiência sensorial, um trajeto que só se conhece percorrendo.

            O passar do tempo, nesse sentido, é algo que ordinariamente vem em nosso favor. Vamos entendendo que tudo tem um tempo e que a cada dia basta o seu bem e também o seu mal. Aprendemos que o que tem que ser, será, mas o que não tiver que ser, não acontecerá, por mais que tentemos torcer as cordas da vida. E o mais importante é que chega um dia no qual a maioria de nós entende que o que não foi tinha uma razão para não ser...

            O fato é que passamos uma parte muito grande de nosso tempo nesse mundo preocupados com o que não está ao nosso alcance, eis que, em verdade, nada está sob controle. Cada dia é único em sua dor ou em sua alegria e vivê-lo é uma dádiva que não se repetirá. Mesmo o mal de alguns dias nos ensina algo, mostrando que o bem deve ser comemorado, deve ser cultivado e desejado e que é pelos dias de bem que tudo vale a pena.

            Se eu soubesse, no passado, que o futuro seria bom, mesmo que nem remotamente parecido com o que planejei ou imaginei, teria perdido menos tempo com aflições inúteis, com medos quase incapacitantes e com dores inexistentes. Eu sorveria cada dia, cada hora, na esperança serena daqueles que conhecem segredos escondidos nas dobras do mundo, certa de as melhores histórias e estórias são escritas por mãos bem criativas e são cheias de surpresas, reviravoltas e significados surpreendentes.

            Se eu tivesse a calma que os anos trazem consigo, eu teria vivido melhor e aproveitado mais o amor e a companhia daqueles que o tempo levou com ele. SE eu soubesse das coisas, eu não teria sido jovem e não saberia como é ter medo, ansiedade, receio de não ser feliz. Infelizmente, não se aprende pelo outro, mas é possível ajudar mesmo a quem não tem compreensão. Se para isso foi necessário que eu mesma me sentisse perdida em alguns pensamentos, em algumas encruzilhadas da minha vida, então, uma vez mais, compreendo que nada é por acaso e tudo vale a pena.

            Agora, ao menos, meu coração vive um dia de cada vez, batendo mais compassado, mais atento à beleza de todas as horas, na expectativa e na esperança dos mais estranhos finais felizes...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES VIEIRA DA SILVA - Advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora - São Paulo.

 



publicado por Luso-brasileiro às 11:34
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